Opinião

Onde vamos ver os filmes?

A pensar em 2021, o Festival de Cannes aconteceu em versão "reduzida"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Os filmes estão nas salas e, como bem sabemos, estão também online — de uma maneira ou de outra, o futuro do cinema passará pela conjugação comercial e cultural dos diversos “espaços” a que os espectadores têm acesso.

Duas notícias paradoxais dominaram a actualidade cinematográfica da última semana. Em primeiro lugar, aconteceu um mini-Festival de Cannes: de 27 a 29 de Outubro, o certame promoveu um “Spécial Cannes 2020” que, com quatro das longas-metragens da selecção oficial estabelecida no começo do ano (mais a secção de curtas e os filmes da Cinéfondation), teve como objectivo principal a afirmação vital do Cinema, ao mesmo tempo anunciando os planos para 2021. Depois, começou a circular o trailer de “Mank”, o novo filme de David Fincher [video] centrado na personagem de Herman J. Mankiewicz e no seu envolvimento na escrita do argumento desse clássico dos clássicos que é “Citizen Kane/O Mundo a seus Pés” (1941), de Orson Welles.

O paradoxo é evidente, mesmo se em diversos sectores da profissão há quem, nem que seja por ingénuo idealismo, o queira negar. Assim, Cannes surgiu (de novo, e com toda a energia) como bandeira de uma galáxia cinematográfica que não abdica da ver e viver os filmes nas salas escuras; ao mesmo tempo, mesmo com a sua anunciada estreia em “salas seleccionadas” dos EUA (13 de Novembro) “Mank” é e será, no essencial, um acontecimento da Internet, quer dizer, da Netflix (a partir de 4 de Dezembro).

Que fazer? Ninguém tem respostas seguras, na certeza de que seria absurdo condenar Cannes por não se ter transformado em montra de filmes “online”, do mesmo modo que não fará sentido avaliar um autor como Fincher, seja em que sentido for, por trabalhar de novo para os circuitos virtuais.

Uma coisa é certa: mais do que nunca, importa reconhecer a necessidade — cultural & comercial — de não favorecer a noção simplista de que se trata de escolher uma coisa “ou” outra. Em boa verdade, um dos desafios fulcrais que se coloca à actual conjuntura cinematográfica (quer a encaremos em termos nacionais ou internacionais) é a urgência de repensar o carácter inevitavelmente híbrido da existência do cinema, da produção à difusão. Dos profissionais que fazem filmes aos responsáveis empresariais, passando, claro, pelos políticos, esse é um desafio do presente, com ou sem pandemia.