Opinião

Sessão de Cinema: “Uma Separação”

Leila Hatami e Payman Maadi: interpretando um casal iraniano em processo de divórcio

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Expondo o labirinto psicológico de um processo de divórcio, o realizador Asghar Farhadi oferece-nos uma visão muito particular que, em qualquer caso, possui um enorme apelo universal — foi a primeira vez que o Irão ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Antes da Revolução Islâmica, em 1979, a produção cinematográfica iraniana apenas tinha concorrido uma vez, em 1977, ao Oscar de melhor filme estrangeiro (agora designado melhor filme internacional). A partir de 1994, passou a apresentar candidaturas regulares, tendo obtido a primeira nomeação com “Children of Heaven” (1997), de Majid Majidi. O primeiro triunfo ocorreria com “Uma Separação” (2011), de Asghar Farhadi, título disponível numa plataforma de streaming.

Importa referir que Farhadi consegue a proeza de ser o realizador dos dois filmes do Irão que já arrebataram a tão cobiçada estatueta dourada — repetiu o feito com “O Vendedor” (2016), disponível na mesma plataforma. Podemos dizer, por isso, que as suas histórias de subtis enredos afectivos, profundamente enraizadas no quotidiano do seu país, possuem um claro apelo universal.

Centrado nas magníficas interpretações de Leila Hatami e Payman Maadi, “Uma Separação” é, como o título sugere, a crónica de um divórcio. Em boa verdade, a questão do divórcio está longe de resumir as convulsões emocionais colocadas em movimento pelo subtil argumento do filme (também da autoria de Farhadi). Em jogo estão questões que ultrapassam o quadro legal de uma eventual separação, envolvendo os factores de coesão, ou decomposição, da paisagem familiar dos protagonistas.

Nesta perspectiva, é especialmente interessante sublinhar o modo como a história desta separação é narrada através do cruzamento de personagens de três gerações. O filme tem mesmo qualquer coisa de investigação (não policial, mas psicológica) sobre o modo como as diferenças de idade pontuam a percepção da realidade, seja ela familiar, seja social. Farhadi filma tudo isso com a precisão de um invulgar observador, clínico, contundente, alheio a moralismos fáceis.

Filmin