Opinião

Sessão de Cinema: “Os 7 de Chicago”

"Os 7 de Chicago": memórias de 1968, num momento atribulado da vida social e política dos EUA

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Aaron Sorkin, o criador da série “Os Homens do Presidente”, regressa com um filme sobre a agitada conjuntura em que decorreu a Convenção Nacional Democrata de 1968 — um excelente exemplo da tradição americana de “cinema social”.

Em tempos de pandemia, a actualidade cinematográfica apresenta-se dividida em duas “frentes”: por um lado, temos as salas escuras que mantêm bem vivos os valores tradicionais do consumo e, em particular, a importância dos grandes ecrãs; por outro lado, as poderosas plataformas de streaming (um fenómeno obviamente anterior à pandemia), por vezes apresentando títulos de produção própria.

É o caso de “Os 7 de Chicago”, de Aaron Sorkin, filme que, além do mais, não será surpresa nas próximas nomeações para os Oscars, já que a Academia de Hollywood, reconhecendo o carácter excepcional da actual conjuntura, definiu regras para a inclusão de muitos títulos lançados directamente online.

Esta é a revisitação de um processo de julgamento que deixou marcas fortes no imaginário político americano e na discussão dos modos de funcionamento das instituições democráticas — trata-se de evocar a Convenção Nacional Democrata de 1968 que levou à escolha de Hubert Humphrey como candidato à presidência dos EUA (viria a ser derrotado por Richard Nixon).

A agitação nas ruas de Chicago levou à prisão e ao julgamento de activistas de várias sensibilidades ideológicas. Sorkin evoca tudo isso através de uma trama dramática tanto mais envolvente quanto sabe dar conta das muitas diferenças das suas personagens, sem nunca perder de vista a complexidade de um atribulado contexto nacional, especialmente marcado pelos protestos contra o envolvimento militar dos EUA no Vietname.

Inscrevendo-se na mais nobre tradição do “cinema social” de Hollywood, “Os 7 de Chicago” é também a confirmação plena do invulgar talento de argumentista e realizador de Sorkin. A esse propósito, convém não esquecer que ele foi o criador da série televisiva “Os Homens do Presidente” (1999-2006), tendo assinado alguns notáveis argumentos para outros cineastas, entre os quais se destaca o de “A Rede Social”, de David Fincher, com o qual conquistou um Oscar referente à produção de 2010.

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