Opinião

Dependemos da TV para sermos felizes

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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Comentador SIC Notícias

Hoje em dia (e, nesta fase atípica, mais do que nunca) o futebol vê-se e aplaude-se pela televisão. Pelas imagens que o realizador escolhe mostrar-nos em casa ou no café.

É com base nessa premissa mais fria e distante que agora apreciamos o jogo. Que agora apreciamos as suas jogadas vistosas, os golos sensacionais e, claro, os lances mais controversos.

Dependemos da TV para sermos felizes. Para vermos futebol. Para estarmos ligados ao jogo.

Porque esta é a realidade vigente, parece-me importante que percebam que, apesar de fazer magia e nos dar essa alegria, a televisão também ilude. Também mostra-nos momentos em que as coisas não são exatamente como parecem ser.

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Há situações (não todas, mas algumas) em que as imagens criam uma falsa sensação de verdade quando a verdade, em campo, é outra bem diferente. Essa ilusão depende, por exemplo, do ângulo de filmagem, da ampliação que é dada à imagem ou apenas da forma como o realizador escolhe projetá-la para o ar. Para dentro de nossas casas.

Por exemplo, uma entrada em tacle deslizante pode parecer profundamente irregular ou claramente legal: depende se é mostrada em velocidade normal ou em "slow motion".

A repetição em câmara lenta tira velocidade e intensidade às infrações, fatores determinantes para que o árbitro atue a nível disciplinar.

Essa visão pode criar perceção errada no espetador e levá-lo a formular juízo de opinião enviesado.

Mas o contrário também pode acontecer: uma mão ilegal na bola é mais fácil de ser analisada com lentidão, porque para aferir pontos de contacto o slow motion é perfeito.

Por ter noção desta dificuldade real, o IFAB instruiu os seus árbitros/videoárbitros a selecionarem, com muito rigor, a forma como revêm lances, estipulando as circunstâncias em que se deve recorrer a um ou outro tipo de imagem.

Como referi, as câmaras lentas devem ser usadas para analisar decisões mais factuais, tais como o local onde ocorre uma infração, a confirmação se a bola saiu (ou não) do terreno de jogo ou o ponto de contacto com a bola ou corpo do adversário. Já a velocidade normal serve para aferir, por exemplo, eventuais Infrações em que esteja em causa a intensidade das cargas.

É quase impossível "vermos" falta num empurrão pelas costas mostrado em super slow motion.

As indicações são para que o VAR selecione sempre as imagens que lhe permitam ter a leitura mais fiel de cada lance, em função do ângulo e velocidade da repetição que analisa.

Aquilo que, à partida, pode apenas parecer um pormenor técnico é afinal uma premissa fundamental para a decisão em campo e para a forma como a lemos cá fora.

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