Opinião

Sob o signo de Orson Welles

Hollywood, 1940: Gary Oldman no papel de Herman J. Mankiewicz

Gisele Schmidt/NETFLIX

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Eis um dos grandes acontecimentos cinematográficos e cinéfilos de 2020: “Mank”, de David Fincher, evoca a gestação do filme “O Mundo a Seus Pés”, de Orson Welles, em particular a figura do seu brilhante argumentista: Herman J. Mankiewicz.

O melhor filme de todos os tempos? Enfim, sejamos realistas, a pergunta não tem resposta única, muito menos definitiva… Felizmente, há uma infinidade de títulos candidatos. A questão não é essa. Acontece que, ao longo das décadas, em diversos inquéritos internacionais para eleger os “melhores filmes” de sempre, nomeadamente na revista britânica “Sight and Sound”, Citizen Kane (1941), de Orson Welles, entre nós conhecido como “O Mundo a Seus Pés”, surgiu repetidas vezes em primeiro lugar.

Dito de outro modo: “Citizen Kane” é uma referência central do grande imaginário cinematográfico, conhecida e celebrada por todos os cinéfilos. Um desses cinéfilos é David Fincher, autor de títulos como “Seven” (1995) ou “A Rede Social” (2010), e assinou agora o seu tributo a Orson Welles. Ou melhor, uma evocação da obra-prima de Welles através de uma personagem essencial na sua gestação: o argumentista Herman J. Mankiewicz (1897-1953), conhecido nos bastidores de Hollywood por uma abreviatura carinhosa: Mank.

Produzido e difundido pela Netflix, o filme chama-se “Mank”, precisamente. Nele se recorda a escrita de “Citizen Kane”, corria o ano de 1940, como um labor agitado, marcado por vários factores de perturbação, desde alguma dificuldade de entendimento entre Welles e Mankiewicz, até ao alcoolismo deste último.

Mas não se trata de uma mera evocação biográfica. Através da personagem de Mank — numa notável interpretação de Gary Oldman —, Fincher percorre os bastidores de Hollywood, expondo um mundo em que o talento artístico se cruza com muitas formas de poder, não necessariamente ligadas à produção cinematográfica. Não por acaso, o magnate da imprensa William Randolph Hearst surge como figura fulcral daqueles bastidores, e tanto mais quanto foi nele que Mank se inspirou para conceber a personagem central do filme de Welles, Charles Foster Kane.

Estamos perante um exemplo raro de amor pelo cinema, levando-nos a compreender os muitos factores, dos puramente afectivos aos banalmente financeiros, que podem pontuar a gestação de um filme. E não será surpresa para ninguém descobrir “Mank” na linha da frente para os principais Óscares de 2020, a atribuir no dia 25 de abril de 2021.