Opinião

Sessão de Cinema: “Tudo Vai Bem”

Yves Montand e Jane Fonda em "Tudo Vai Bem": memórias íntimas e sociais do ano de 1972

Produzido há quase meio século, “Tudo Vai Bem”, de Jean-Luc Godard, é um testemunho crítico sobre a França pós-Maio 68. Com duas grandes estrelas: o francês Yves Montand e a americana Jane Fonda.

Por vezes, um retrato apressado dos mestres da Nova Vaga francesa (e, de um modo geral, dos movimentos transformadores do cinema ao longo da década de 1960) leva a supor que eles nunca filmaram com grandes vedetas. Teriam até relutância em usá-las nos seus filmes. Nada mais errado. No caso de Jean-Luc Godard, podemos, desde logo, citar o exemplo de O Desprezo(1963), protagonizado por aquela que, na época, era uma das actrizes francesas mais populares, não apenas no mercado francês, mas a nível mundial: Brigitte Bardot.

Mais tarde, depois da Nova Vaga e, sobretudo, depois das convulsões de Maio de 68, Godard convocou dois nomes emblemáticos da produção cinematográfica da década de 70. Foi em 1972, no filme “Tudo Vai Bem” — um deles, Yves Montand, era também uma referência já lendária da canção francesa; com ele contracenava Jane Fonda, actriz “oscarizada” graças ao seu trabalho no policial “Klute” (1971), de Alan J. Pakula.

Para Godard, tratava-se de lidar com as suas próprias ilusões e desilusões ligadas aos tempos atribulados que a França tinha vivido. Agora disponível em streaming, “Tudo Vai Bem” encena uma situação de greve observada, precisamente, pelas personagens de Fonda e Montand: ela, uma jornalista americana a trabalhar em Paris; ele, um cineasta que, em anos recentes, com algum sentimento de culpa, sobrevivera a realizar trabalhos publicitários que não correspondiam aos seus ideais profissionais.

O resultado é aquilo a que podemos chamar, com toda a propriedade, um verdadeiro filme histórico. Que é como quem diz: um testemunho sobre a França há quase meio século, inseparável de uma reflexão sobre o próprio trabalho do cinema. Como se diz numa das cenas [video], cada personagem é levada a “pensar-se historicamente”.

Filmin