Opinião

A herança de John le Carré

Rachel Weisz e Ralph Fiennes em "O Fiel Jardineiro", uma das melhores adaptações da obra de John le Carré

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Perante a notícia do falecimento de John le Carré, reavivam-se as memórias das muitas adaptações dos seus romances, a começar pela mini-série televisiva “Smiley’s People”, protagonizada por Alec Guinness.

Um dos sintomas das muitas mudanças de paradigmas culturais neste atribulado século XXI é o facto de a galeria de heróis que domina o cinema (e os mercados cinematográficos) já não pertencer tanto ao imaginário clássico da literatura, mas à banda desenhada. Dito de forma esquemática, logo redutora, as marionetas digitais da Marvel secundarizaram, por exemplo, as personagens de John le Carré.

Em boa verdade, creio que ficamos todos a perder com essa secundarização. Perante a notícia do falecimento do escritor inglês (no dia 12 de dezembro, contava 89 anos), vale a pena recordar duas ou três coisas que sabemos sobre a sua herança cinematográfica.

Cinematográfica e televisiva, convém sublinhar, já que uma das mais populares recriações do seu universo de espiões e manipulações políticas aconteceu na televisão britânica, mais exactamente na BBC: a mini-série “Smiley’s People” (1982), adaptada do romance homónimo de John le Carré, consagrou Alec Guinness, no papel de George Smiley, um oficial dos serviços secretos, como o anti-herói, por excelência, distante e fascinante, do mundo da espionagem.

Sendo grande parte da obra de John le Carré marcada pelas convulsões da Guerra Fria, a adaptação cinematográfica de “O Espião que Saiu do Frio”, realizada por Martin Ritt em 1965 [trailer], destaca-se como modelo do clássico “filme-de-espionagem”. Dir-se-ia que a sua desencantada visão da “realpolitik” era o contraponto cinematográfico da ligeireza espectacular que, na mesma época, caracterizava os primeiros filmes de James Bond.

Uma das mais esquecidas, e também das mais conseguidas, adaptações de John le Carré é A Rapariga do Tambor (1984), centrada numa brilhante composição de Diane Keaton, sob a direcção de George Roy Hill (o realizador “oscarizado”, dez anos antes, com “A Golpada”). Da sua variada herança cinematográfica, vale também a pena não esquecer “O Fiel Jardineiro” (2005), a meu ver, de longe, o melhor filme do brasileiro Fernando Meirelles; a liderar o elenco encontramos um par magnífico, Ralph Fiennes e Rachel Weisz, ela consagrada com o Oscar de melhor actriz secundária.