Opinião

George Clooney, cineasta

George Clooney como intérprete principal de "O Céu da Meia-Noite": ficção científica no ano de 2049...

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Produzido e difundido por uma plataforma de streaming, “O Céu da Meia-Noite” é uma saga de ficção científica em que podemos reencontrar George Clooney na dupla função de intérprete principal e realizador.

Eis a bizarra conjuntura cinematográfica em que nos descobrimos: por um lado, a pandemia está a atingir de forma drástica o mercado tradicional das salas; por outro lado, as plataformas de streaming continuam a alimentar os ecrãs caseiros com uma avalanche de novas produções. Um dos exemplos mais sugestivos das últimas semanas poderá ser O Céu da Meia-Noite(Netflix).

Desde logo, porque as suas componentes de ficção científica, os seus cenários grandiosos e, em particular, uma cena no espaço em volta de uma nave, tudo isso apela ao que não podemos ter. Entenda-se: o grande ecrã de uma sala escura. Depois, porque através dele se reforça uma dimensão pouco conhecida do seu protagonista, George Clooney. De facto, com “O Céu da Meia-Noite”, Clooney assume também, pela sexta vez, as funções de realizador.

Vale a pena recordar que o seu trabalho como cineasta gerou, pelo menos, dois títulos magníficos: “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), sobre os jornalistas da CBS durante a época “maccartista” [trailer], e “Nos Idos de Março” (2011), retratando os bastidores de uma campanha eleitoral nos EUA. Agora, com “O Céu da Meia-Noite”, Clooney conta-nos uma saga apocalíptica centrada na personagem de um cientista que tenta contactar uma nave proveniente de Júpiter — a acção passa-se em 2049…

De barba comprida, Clooney interpreta esse cientista como uma espécie de “último homem na Terra”, num registo com evidentes ecos simbólicos na nossa actualidade. A sua proposta, insisto, contém todas as componentes de um objecto pensado e fabricado para as salas. Reconhecer isso não envolve qualquer negativismo em relação a qualquer forma de difusão dos filmes, mas não deixa de ser um paradoxo dos tempos complicados que estamos a viver — no cinema e para lá do cinema.