Opinião

A alegria de um leão talentoso

José Manuel Freitas

José Manuel Freitas

Comentador SIC Notícias

Às terças e sextas o futebol marca presença maioritária no Match Point, mas o Desporto em geral terá sempre aqui o seu espaço. Na escrita de José Manuel Freitas.

Ainda falta uma jornada e toda a segunda volta para que se conclua a presente Liga de futebol, mas nove pontos de desvantagem, que são aqueles que o Benfica tem de atraso para o líder Sporting depois do desaire da noite de ontem, em Alvalade, são muitos pontos para recuperar. Mas, uma vez que em futebol nada é estanque, ninguém nos pode garantir que está tudo resolvido na competição ou que as equipas vão terminar, em maio, nas posições em que se encontram. A verdade, nua e crua, é que o dérbi eterno provou que, nesta fase da prova, os leões justificam a liderança e não se trata apenas da estrela tantas vezes trazida à conversa pelo seu treinador, Rúben Amorim. Ali há trabalho, dedicação, alegria, entrega total e talento numa equipa jovem, onde pontificam uns quantos mais experientes sempre prontos “a dar o litro”. Não quer dizer que nas outras equipas, a começar pelos encarnados, não aconteça o mesmo, mas até ver… a felicidade pertence toda ao leão.

O dérbi era capital para as aspirações dos encarnados. Ficar a nove pontos de distância, mesmo com 18 jogos por realizar, era o pior que lhes podia acontecer depois de tudo o que lhe tem sucedido, especialmente no que diz respeito a profissionais infetados com Covid19 – ao Sporting essa praga bateu-lhe à porta logo no início de época – e que tantas vezes tem impossibilitado a Jorge Jesus apresentar a melhor equipa. JJ que, por esse motivo, esteve impedido de regressar à casa (onde não foi muito feliz, três troféus à parte) onde trabalhou antes da aventura muito vitoriosa na Arábia Saudita e Brasil, precisamente por estar infetado com o maldito vírus. Não podia acontecer, o tal desaire, mas aconteceu, ainda que os encarnados, como medida preventiva, tenham apostado num esquema que tem sido a matriz leonina, o 3x4x3. Que quase resultava (o empate esteve tão perto…), mas não resultou porque o leão joga tudo até ao último segundo e aos 90+2 (um minuto que começa a ser fatídico para os lados da Luz desde aquele golo de Kelvin que valeu o título ao FC Porto…) Matheus Nunes “voou sobre os centrais” e garantiu o triunfo, pelo qual o leão talentoso mais lutou.

MATHEUS, TT, PALHINHA, PAULINHO E… CERVI

Do dérbi há vários nomes que ressaltam, direta ou colateralmente: Matheus Nunes, um menino de 22 anos, que ainda há cinco anos jogava no Ericeirense, numa Liga distrital, porque rendeu o quase impedido João Palhinha, mandou no “miolo” e obteve o golo do triunfo, qual herói improvável; Tiago Tomás, ou TT, outro garoto ainda mais jovem, apenas 18 anos, e que sozinho no ataque infernizou a cabeça ao experiente trio de centrais da Luz (não perdeu essa condição com a troca de Jardel por Weigl); Cervi não foi, nem de longe nem de perto, o mais determinante dos encarnados (Rafa foi aquele que esteve a um nível superior), mas enquanto esteve em campo, 65 minutos, conseguiu travar aquele que é um dos maiores municiadores ofensivos do leão, Porro, que só a partir dessa altura teve os espaços de que tanto gosta – aliás… esteve envolvido na jogada do golo.

João Palhinha, que por força do inacreditável cartão amarelo que lhe foi mostrado no Bessa por Fábio Veríssimo (de nada valeu, posteriormente, a piedosa desculpa à decisão assumida), o quinto da época, estava impedido de participar, também acabou por ir a jogo. Porque o Tribunal Central Administrativo do Sul suspendeu a decisão do Conselho de Disciplina de o castigar com um jogo, mas vamos ver até onde irá esta “novela”, pois recurso para cá, recurso para lá é bem capaz de só terminar lá para 2040…

Mesmo sem ter (ainda) jogado, outra das figuras do dérbi foi Paulinho, novo reforço sportinguista (com ele ingressam nos leões Matheus Reis e João Pereira, um regresso), porque finalmente se transferiu do Sp. Braga, por números proibitivos para o nosso futebol: entre dinheiro para os minhotos, jogadores que transitam de emblema, mais salários e prémios… é coisa para rondar os 20 milhões de euros. Mas se este é o homem ideal para Rúben Amorim e pode sê-lo perfeitamente, até porque os leões não têm nenhum futebolista com tais características … se calhar ainda vem aí mais algum despedimento coletivo.

SEGUNDA VOLTA MUITO… ESPINHOSA

Faltam, ainda, meia-dúzia de pormaiores que merece destaque como reforço da liderança sportinguista, que está segura pelos quatro pontos de vantagem sobre o FC Porto – como teria dado jeito aos dragões o nulo que Matheus Nunes contrariou… - e nove sobre Sp. Braga (que agora é terceiro) e Benfica, rivais que o Sporting visita na segunda volta: melhor defesa (apenas 9 golos sofridos); segundo ataque, com 34 golos marcados (só os portistas marcam mais, com 39); única equipa sem derrotas (13 vitórias e 3 empates); 9 jogos sem sofrer golos; 23 utilizados até à noite de ontem, mas desse lote quatro já não estão no clube: Wendel e Vietto, no início da Liga, Borja e Sporar, desde agora. Faltam 18 jogos, é verdade, mas estar isolado na frente…

Como já se referiu, o líder vai ter muito trabalho ao longo da segunda metade da prova (antes de lá chegar, esta sexta-feira reencontra o Marítimo, única equipa com quem perdeu a nível nacional, na Taça de Portugal), mas o mesmo se passará, garantidamente, com os outros candidatos – continuo a olhar para o Sp. Braga como tal. E um bom exemplo do que refiro é o jogo entre minhotos e dragões já no domingo, pois a Liga tem desafios quase todos os dias... Nessa medida, porque muita água correrá sob as pontes, seria abusivo dizer que o Benfica está de fora porque perdeu com o Sporting. Está difícil, sem dúvida, mas está para todos. Porque ainda faltam 18 jogos. Se faltassem só quatro ou cinco… outras contas seriam feitas.

O FEITO DE ABEL FERREIRA

Não ficava bem, mesmo que seja fora do contexto do Sporting-Benfica, não me referir ao fantástico triunfo do Palmeiras na Taça dos Libertadores (vitória pela margem mínima, já muito fora de horas, frente ao Santos, no adeus de Lucas Veríssimo, novo reforço do Benfica) obra de um grupo de futebolistas de muito boa qualidade, liderado por um treinador português: Abel Ferreira. O trabalho levado a cabo pelo técnico português é digno de todos os elogios, particularmente porque só lidera os paulistas há… três meses! Brilhante, pois.

A final esteve longe de ser aquele jogo. Houve pouco futebol e muita discussão, o jogo foi muito musculado, até em demasia, Cuca, o técnico do Santos, foi expulso por uma parvoíce (esconder a bola de um jogador adversário foi-lhe fatal) e o que ressalta dos festejos foram as lágrimas de Abel Ferreira quando recordou a família: ter êxito (ou não) muito longe de casa sem o apoio direto de quem mais se gosta tem custos. Mas há lágrimas, como as suas, que vão valer os afetos merecidos no regresso a casa. E igualado o feito de Jorge Jesus, pelo Flamengo, vamos ver o que nos dirá o Mundial de Clubes no próximo fim de semana. O Bayern (melhor equipa da atualidade) está lá, mas em jogos a eliminar… Se nos recordarmos que o “mengão” quase levava de vencida o Liverpool

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