Opinião

O elogio da decência

Carlos Barria

Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Joe Biden é Presidente dos EUA há apenas um mês mas já dá para perceber que na Casa Branca voltou a haver alguém decente e em quem se pode confiar.

"Os bons momentos passam, mas os maus também. A mutabilidade é a nossa tragédia, mas também é a nossa esperança. Os piores momentos, e os melhores, passam sempre"

(Boécio, filósofo e estadista romano, 480-525, Pavia)

“Antes de assumir funções apontei como objetivo administrar 100 milhões de doses de vacinas COVID-19 a cidadãos americanos nos primeiros 100 dias da minha administração. Com os progressos que temos conseguido e graças ao trabalho fantástico da minha equipa e dos profissionais no terreno, tenho a convicção não só que esse objetivo será atingido como, quase de certeza, será amplamente superado"

(Joe Biden, Presidente dos EUA, depois do governo americano ter garantido cerca de 600 milhões de doses até ao final de julho)

Joe Biden é Presidente dos EUA há apenas um mês mas já dá para perceber que na Casa Branca voltou a haver alguém decente e em quem se pode confiar.

Pete Marovich / POOL

Pete Marovich / POOL

Sim, a liderança conta. E não, não é aceitável (não é, sequer, digno) fechar os olhos a comportamentos moralmente inaceitáveis vindos de quem se ocupa a Presidência dos Estados Unidos.

A História, que com o passar do tempo tem sido cada vez mais benévola para com Barack Obama, tratará de colocar no devido lugar a herança miserável de Donald Trump.

As notícias sobre a “vitória” de Trump no processo de “impeachment” são um bocadinho exageradas.

A exigência de dois terços para uma confirmação de destituição “a posteriori” impediu o pior cenário para o ex-Presidente, mas ter havido sete senadores republicanos a votar ao lado dos 50 democratas pela condenação já foi muito significativo.

Houve maioria de 57% de senadores a votar pela condenação, pelo que nem se pode considerar que a maioria do Senado americano tenha considerado que Trump não devia ter sido condenado por incitamento à insurreição.

Só que não é assim que pensa o universo Trump. Nos meios ligados ao Trumpismo, o resultado da votação de sábado foi uma grande vitória para o ex-Presidente e reforça-o como possível candidato presidencial em 2024.

No primeiro "impeachment" só um republicano (Romney) votou no Senado com os democratas (e um congressista, Amish, na câmara baixa, que passou dos republicanos para independente por causa disto). Neste já foram dez congressistas e sete senadores -- muito mais, portanto. No primeiro "impeachment" não houve sequer maioria simples no Senado (48). Agora houve bem mais que metade.

Se o senador Mitch McConnell, líder da agora minoria republicana no Senado, tivesse votado em consequência com as palavras duríssimas que proferiu logo a seguir contra Donald Trump, teria no mínimo aumentado para oito o leque de senadores republicanos a votar pelo “impeachment” (no máximo, teria levado com isso, porque é o líder da bancada, outros republicanos a fazê-lo). Mas Mitch sinalizou outra coisa: entende que há uma diferença entre o processo político e responsabilidades criminais. E o seu discurso, certamente, abre caminho para que Trump venha a ser responsabilidade criminalmente pelo ato inominável de 6 de janeiro.

Carlos Barria

O Partido Republicano fica com um grande problema em mãos: precisava de se livrar da herança do pior Presidente em nove décadas, mas está refém dos 74 milhões de votos que o mesmo obteve há três meses. Mesmo quem se posicionava para ficar como herdeiro desses votos (senadores como Ted Cruz ou Josh Hawley) ficam presos, à espera de ver o que líder da fação fará. Trump deu, logo a seguir à votação, sinais claros que está mesmo a preparar um regresso, de modo a dar gás ao seu “movimento belo”.

O senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, que no sábado chegou a votar ao lado dos democratas para que se pudessem chamar novas testemunhas, mas depois se manteve do lado da absolvição, falou com Trump e que o ex-Presidente se mostrou “pronto para avançar”. “Ele está preparado para seguir em frente e liderar a reconstrução do Partido Republicano", disse Graham à FOX News. “Está muito motivado para encarar 2022, as eleições intercalares, e vou falar com ele na próxima semana”.

Está aberta a guerra interna no Partido Republicano, condenado, esse sim, a enfrentar a contradição consigo próprio.

A MAIORIA DA AMÉRICA QUER MUITO MENOS TRUMP. SÓ QUE A ESMAGADORA MAIORIA DOS REPUBLICANOS QUER AINDA MAIS

Enquanto a maioria clara da sociedade americana deseja… “Menos Trump” depois de tudo isto, os republicanos, simplesmente, não podem (porque a maioria dos seus eleitores não quer) livrar-se dele.

Sondagem Politico/Morning Consult, feita nos dois dias seguintes à votação no Senado que absolveu Trump dos dois terços (mas ainda assim impôs 57% de votos contra o ex-Presidente). 59% dos republicanos disse, nos últimos dois dias, que pretende que Trump tenha “maior peso” no Partido Republicano daqui para a frente. Isso são 18 pontos acima do que existiam a 7 de janeiro, “day after” da invasão ao Capitólio. E mais 9 pontos que a 25 de janeiro.

Outro dado a ter em conta: neste momento apenas 34% dos americanos veem Trump de modo favorável (o tal eleitorado-base fiel e cego). Só que nos eleitores republicanos esse valor é de 81%. Mais que os 77% a 7 de janeiro e os 74% a 25 de janeiro. 55% dos eleitores republicanos dizem que votariam em Trump nas primárias republicanas para as presidenciais 2024. Muitíssimo mais que os 12% de Mike Pence e os 6% de Nikkie Haley e Donald Trump Jr. e os 5% de Marco Rubio, Tom Cotton, Mitt Romney e Ted Cruz.

Como é que isto é possível depois da inominável invasão do Capitólio, com responsabilidades objetivas de Trump?

As teorias da conspiração, cada vez mais dominantes em muitos setores da direita americana, ajudam a explicar. Se 83% dos democratas não têm dúvidas que os invasores do Capitólio eram apoiantes de Trump (e eram), os resultados entre os republicanos são simplesmente assustadores: apenas 43% acreditam nessa tese verdadeira de terem sido apoiantes de Trump os “Captiol rioters”; 29% acham que foram… opositores de Trump. 27% não têm bem a certeza.

Se houve coisa que foi mesmo vandalizada pela herança Trump foi a verdade factual. Assustador.

Nancy Pelosi, a “speaker” da House of Representatives e uma das principais visadas (e vítimas) da invasão do Capitólio, anunciou a criação de um órgão politicamente independente para investigar os acontecimentos de 6 de janeiro – numa comissão com poderes e forma idênticos à que foi criada depois do 11 de Setembro. “Para proteger a nossa segurança, a nossa segurança, a nossa segurança, o nosso próximo passo será o de criar uma comissão externa, independente, do estilo 9/11 Comission para investigar e reportar tudo o que aconteceu: os factos e as causas”.

Pelosi proporá fundos extra para reforçar a segurança do Capitólio e pediu ao General na reserva Russel Honoré para liderar o processo de reforma da segurança do Capitólio.

Como era previsível, os sete senadores republicanos que tiveram a coragem de votar pelo “impeachment” de Trump (Susan Collins, Lisa Murkowski, Richard Burr, Mitt Romney, Pat Toomey, Ben Sasse e Bill Cassidy) estão já a sofrer as consequências disso: publicações da “Trumposfera”, nos últimos dias, têm publicado artigos de opinião com referências a “traidores” e parte dos respetivos eleitorados nos respetivos estados ameaçam penalizá-los em próximos atos eleitorais.

REFORMAS DE BOM SENSO PORQUE “É POSSÍVEL FAZER MELHOR”

Joe Biden quer reformar as leis de porte de arma na América. Três anos depois do tiroteio a escola de Parkland, Florida, do qual resultaram 17 mortos, o Presidente dos EUA mostrou-se disposto a avançar com proposta legislativa para restringir o acesso às armas. Os EUA têm 330 milhões de habitantes. Mas têm ainda mais armas… legais.

A Segunda Emenda da Constituição dos EUA consagra o direito ao acesso às armas para defesa dos cidadãos – numa clara inscrição americana de conceder mais poder de escolha individual e menos ao Estado.

Mas a multiplicação dos “mass shootings” sobretudo em ambiente escolar e universitário, levou Biden a assumir: “Esta é uma história escrita por jovens de todas as gerações que desafiaram os dogmas vigentes para exigir uma verdade simples: podemos fazer melhor. E faremos".

Joe prometeu que a sua administração não iria esperar por um hipotético próximo tiroteio para fazer uma proposta ao Congresso, a única instância norte-americana com poder para proceder a uma reforma da legislação sobre armas. Biden quer leis capazes de verificar os antecedentes dos compradores de armas e à proibição de venda de armas que permitam matar um grande número de pessoas sem necessidade de recarregar as balas. O novo Presidente pediu ainda o fim da "imunidade" de que gozam os fabricantes que vendem essas "armas de guerra" nas ruas dos Estados Unidos da América.

Outra frente de preocupação legislativa desta Administração americana é a Saúde. Biden escreveu no seu Facebook oficial: “O acesso aos cuidados de Saúde são um direito – e farei tudo o que estiver ao meu alcance e for do meu poder para assegurar que todos os Americanos tenham acesso a Saúde de qualidade e sustentável do ponto de vista financeiro”.

O PRIMEIRO DESEMPATE DE KAMALA HARRIS

O Senado aprovou há dias resolução que permite aprovação do pacote Biden de ajuda de emergência económica pela situação pandémica com maioria simples e não com “supermaioria” de 60 senadores para evitar “filibuster” (minoria de bloqueio”).

Os 1,9 biliões de dólares (cerca de 10% do PIB americano) colocam esse plano como sendo, de longe, a maior intervenção governamental alguma vez feita numa economia de mercado. Joe Biden preferia ter tido apoio bipartidário para tão grande empreendimento, mas necessitou do voto de preferência da vice-presidente Kamala Harris, presidente por inerência do Senado.

Numa camâra alta dividida exatamente ao meio entre democratas e republicanos (50-50), foi a primeira de provavelmente muitas vezes em que isso terá que acontecer, pelo menos até às “midterm” de novembro de 2022.

Jonathan Ernst

NÃO CAIR NO ERRO TÁTICO DE OBAMA

Joe Biden tem uma agenda política e um quadro de valores em tudo idênticos aos que tinha Barack Obama – e isso não pode causar admiração, se nos lembrarmos que a atual Presidente dos EUA era o número dois de Obama na Casa Branca entre 2009 e 2017.

Mas há um ponto crucial que estes primeiros dias de era Biden estão a mostrar e que marca uma diferença que pode vir a ser importante. Obama cometeu um erro no seu primeiro mandato: perdeu demasiado tempo e gastou demasiadas energias num esforço louvável, mas ingrato e, como tal, improdutivo e inconsequente – o de acreditar que valia a pena persuadir a oposição republicana.

Nas suas memórias (“Terra Prometida”), o próprio Obama discorre sobre isso e assume o erro cometido. Como só teve dois anos com maioria no Congresso, isso acabou por comprometer-lhe boa parte (quase toda) a agenda legislativa a que se tinha proposto. Mesmo a aprovação histórica da Reforma da Saúde só foi feita ainda em tempo de “supermaioria” democrata no Senado, por março de 2010 – mas, mesmo assim, à custa de várias cedências ao outro lado. Obama hesitava em assinar ordens executivas (acreditava muito mais no consenso da via congressional) e só recorreu a elas no segundo mandato, quando perdeu margem de movimentação política no Capitólio.

Biden, que nessa altura foi o principal pivô da Presidência Obama nas negociações no Congresso, ficou “vacinado” para essa impossibilidade. E está mesmo disposto a ter uma presidência diferente nesse aspeto. “Avancem em grande. E avancem rápido. Se for preciso, avancem sem os republicanos”. É precisamente

nestes termos que o Presidente Biden tem falado com os seus membros de Governo, assessores e conselheiros, na forma como lidar com o processo de execução das políticas já enunciadas nestas primeiras semanas.

O Presidente tomou a liderança, ao assinar várias ordens executivas e anunciar intenções de propostas legislativas que posicionam o que pretende para os primeiros meses.

A fase que agora se inicia é de concretização e execução.

A OPINIÃO DE GERMANO ALMEIDA

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