Opinião

Sessão de Cinema: “O Homem que Queria Ser Rei”

Michael Caine e Sean Connery: memórias das aventuras cinematográficas de 1975

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com Sean Connery, Michael Caine Christopher Plummer, esta aventura inspirada em Rudyard Kipling é uma ilustração exemplar dos poderes do espectáculo segundo o mestre clássico John Huston.

A notícia do falecimento de Christopher Plummer (no dia 5 de fevereiro, contava 91 anos) suscitou a redescoberta de algumas das suas entrevistas mais emblemáticas. Ele que ficou famoso pela sua participação em “Música no Coração” (1965), recordava, curiosamente, como um dos momentos mais felizes do seu trabalho o filme “O Homem que Queria Ser Rei” (1975), uma realização de John Huston.

Plummer não tinha o papel principal, uma vez que o elenco era comandado por Sean Connery e Michael Caine, mas podemos deduzir que este terá sido um filme gerado num ambiente de muitas cumplicidades e alegria criativa. Corresponde, aliás, a um projecto que Huston manteve ao longo de muitos anos (desde a década de 50), nunca desistindo da sua concretização: uma adaptação do conto homónimo de Rudyard Kipling (publicado em 1888) sobre dois aventureiros britânicos que, na sequência de muitas aventuras mais ou menos burlescas, acabam por assumir o poder num reino esquecido de uma região remota do Afeganistão — Plummer interpreta a personagem do próprio Kipling.

Quase meio século depois do lançamento de “O Homem que Queria Ser Rei”, o filme adquiriu o simbolismo de uma verdadeiro clássico, sedutor e intemporal, superando as marcas da época em que foi produzido. Decisiva para tal efeito é, por certo, a visão de Huston: sendo uma antologia de muitas peripécias pontuadas por uma contagiante ironia, este é também um conto moral sobre o exercício do poder político, seus mecanismos, ambiguidades e, em última instância, fragilidades.

Foi um fenómeno de popularidade, tanto mais curioso quanto o ano de 1975 foi dominado por um filme incontornável — “Tubarão”, de Steven Spielberg — que, em qualquer caso, em termos de bilheteira, se impôs como um fenómeno francamente excepcional. “O Homem que Queria Ser Rei” ilustra, afinal, um gosto eminentemente clássico de espectáculo e aventura. Sempre enredado num desconcertante humor.

TVCine

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