Opinião

Breve memória de Martha Stewart

Humphrey Bogart e Martha Stewart em "Matar ou Não Matar" (1950), um clássico do filme "noir"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A actriz Martha Stewart faleceu aos 98 anos de idade: há muito retirada do cinema, a sua filmografia, ainda que como secundária, constitui uma referência modelar da “idade de ouro” de Hollywood.

Este domingo foi noticiado o falecimento da actriz Martha Stewart, ocorrido a 17 de fevereiro (não confundir com a personalidade de televisão com o mesmo nome). Tinha 98 anos e encontrava-se há muito — desde meados da década de 60 — retirada de qualquer relação profissional com o mundo do cinema.

Evitemos o cliché que, face a alguns óbitos de personalidades da “idade de ouro” de Hollywood, tende a proclamar que estamos perante o “fim de uma era”. Na verdade, essa “era” há muito acabou, tanto mais que, no período em que Martha Stewart pôs fim à carreira de actriz, o seu sistema artístico e económico já só persistia como memória mais ou menos nostálgica.

Vale a pena, creio eu, recordar que estamos perante uma figura emblemática de um tempo em que a produção americana, enraizada no lendário studio system, se apresentava organizada segundo uma lógica de géneros que não tem qualquer equivalente no marketing contemporâneo dos super-heróis (ainda menos nas plataformas de streaming). Na sua condição de intérprete secundária, Martha Stewart foi, assim, um símbolo exemplar de um universo criativo em que determinados modelos — comédia, musical, “western”, etc. — marcavam as relações dos espectadores comuns com o mundo do cinema.

Na sua curta carreira, Martha Stewart surgiu, justamente, em dois títulos emblemáticos de tais modelos: o drama romântico “Daisy Kenyon/Entre o Amor e o Pecado” (1947), de Otto Preminger, e “In a Lonely Place/Matar ou Não Matar” (1950), de Nicholas Ray. Este último emerge como o momento central do seu trabalho, uma vez que integra a galeria dos grandes clássicos de um certo “suspense” existencial, no período do chamado filme “noir”, sendo dominado pelo par Humphrey Bogart/Gloria Grahame [trailer].

Como muitos outros profissionais da mesma geração, Martha Stewart terminou a carreira em televisão, tendo participado, por exemplo, em 1963, num episódio da série “The Alfred Hitchcock Hour”. A sua herança envolve a singularidade de uma intérprete que, sem deixar de ser secundária, se distingue pelas marcas de uma invulgar subtileza dramática.