Opinião

Concretizar sem ruído

Kevin Lamarque

Donald Trump sabia mobilizar, mas era incapaz de governar. Joe Biden dá prioridade à eficácia na concretização – mesmo que não gere grandes paixões.

As diferenças entre o 45.º e o 46.º Presidentes dos EUA são tão grandes que até é estranho ver como chegaram ao mesmo cargo.

Biden antecipou em dois meses o “deadline” para vacinar toda a população adulta americana — tinha-se comprometido em fazer isso até julho, passou a assumir maio como prazo.

E lançou outra novidade: a Administração federal americana deu instruções aos estados para darem prioridade aos professores nas próximas doses de vacinação. A intenção é clara: acelerar, em segurança, a reabertura das escolas. Miguel Cardona, secretário da Administração Biden, está incumbido pelo Presidente para concretizar a tarefa.

O novo Presidente tem conseguido baixar a temperatura e está a construir “maioria de bom senso” capaz de ultrapassar a profunda fratura política, ideológica e, mais do que isso, identitária que teve na gravíssima invasão do Capitólio, o seu exemplo limite.

Kevin Lamarque

Pacificar a sociedade americana pode ser objetivo impossível, mas o sucessor de Trump tem conseguido marcar pontos na sua agenda.

Já aprovou o megaplano de estímulos económicos na Câmara dos Representantes, deverá fazê-lo no Senado nos próximos dias (ainda que com algumas alterações à proposta inicial).

Prepara-se para rever as leis de porte de arma na América, rumo a uma via mais prudente no acesso. Outras frentes de preocupação legislativa desta Administração são a Saúde e a igualdade racial no acesso a oportunidades.

Biden tem agenda política e um quadro de valores em tudo idênticos aos que tinha Barack Obama – e isso não pode causar admiração, se nos lembrarmos que a atual Presidente dos EUA era o número dois de Obama na Casa Branca entre 2009 e 2017.

Mas há um ponto crucial que os primeiros 40 dias da Administração Biden mostrou e que marca uma diferença que pode vir a ser importante.

Obama e Trump em 2009

Obama e Trump em 2009

Jason Reed

Obama cometeu um erro no seu primeiro mandato: perdeu demasiado tempo num esforço ingrato – o de acreditar que valia a pena persuadir a oposição republicana. Hesitava em assinar ordens executivas (acreditava muito mais no consenso da via congressional) e só recorreu a elas no segundo mandato, quando perdeu margem de movimentação política no Capitólio.

Biden, que nessa altura foi o principal pivô da Presidência Obama nas negociações no Congresso, ficou “vacinado” para essa impossibilidade.

E está mesmo disposto a ter uma presidência diferente nesse aspeto. Por isso tem dado esta instrução à sua equipa: “Avancem em grande. E avancem rápido. Se for preciso, avancem sem os republicanos”.

Nos últimos 28 anos, em apenas quatro os democratas tiveram o controlo da Presidência e das duas câmaras do Congresso, como têm agora. Biden sabe disso e quer aproveitar o próximo ano e meio, até às intercalares de 2022, para aumentar o salário mínimo, avançar com cuidados de saúde alargados e reforçar os programas sociais.

TRUMP, NA PRÁTICA, JÁ ANUNCIOU CANDIDATURA PARA 2024

Trump falou no CPAC, maior evento anual do conservadorismo americano, e já apontou para 2024.

Afastou a ideia de criar um terceiro partido e posicionou-se como candidato natural do Partido Republicano para daqui a quatro anos. Arrasou os sete senadores republicanos que votaram pelo “impeachment”, bem como congressistas com Liz Cheney, e lançou apelo enraivecido aos apoiantes: “Livrem-se deles nas próximas eleições!”, referindo-se às intercalares de 2022.

Trump criticou as políticas de imigração da Administração Biden, acusou o seu sucessor de “permitir invasões em massa de imigrantes ilegais”, recuperou a retórica de ódio para com os estrangeiros, disse que “são precisos líderes republicanos feitos de aço”, voltou ao discurso de diabolização dos media, dos democratas e da elite.

Num discurso perigoso, Trump não mostrou qualquer remorso sobre o violento ataque ao Capitólio, que incitou e que levaria a cinco mortos, e insistiu na narrativa falsa de uma “eleição roubada”.

“Os democratas devem sofrer grandes derrotas nas midterms e devem perder claramente a Casa Branca daqui a quatro anos… Posso vir a decidir derrotá-los por uma terceira vez”, disse Trump, numa alusão que junta, na prática, o anúncio de uma nova candidatura e uma insistência delirante de que terá ganho a eleição de novembro passado contra Biden. Trump disse ainda que o movimento que criou “está longe de ter terminado”.

“O futuro do Partido Republicano é o de um partido que defende os valores e interesses sociais, culturais e económicos das famílias e dos trabalhadores americanos. Os republicanos acreditam que as necessidades dos americanos devem surgir em primeiro lugar”, disse o ex-Presidente.

Joe Skipper

Não restam dúvidas: Trump quer mesmo continuar como líder de uma corrente forte, importante e numerosa, que segue um populismo irresponsável e antidemocrático e que se manterá como grande problema para o Partido Republicano porque, na verdade, tem instrumentos para o dominar por mais um ciclo eleitoral.

A Conservative Political Action Conference, que decorreu no passado fim de semana em Orlando, Florida, mostrou que o Trumpismo continua a força dominante no Partido Republicano. Antes do mais, no tom e na insistência para com falsas acusações de fraude eleitoral na vitória de Joe Biden em novembro.

Um dos painéis foi sobre a necessidade “proteger as eleições”, num pressuposto, errado, de que a eleição presidencial 2020 não foi legítima. Ex-rival nas primárias republicanas de 2016 e agora convertido a Trumpista dos sete costados, o senador Ted Cruz avisou, entusiasmado: "Donald Trump não vai embora! Nem pensem nisso!!" Os discursos apontaram fortes críticas para com a forma como Presidente Joe Biden tem encarado a ameaça da China, acusando-o de ser “demasiado macio” com Pequim.

É preciso dizer que sondagem recente para a nomeação republicana para 2024 dava 55% a Donald Trump e mais perto de 20% a outros possíveis herdeiros do Trumpismo (Ted Cruz, Mike Pence, Donald Trump Jr.).

Três em cada quatro eleitores republicanos continua a querer Trump ou algo parecido e rejeita uma correção mais moderada e institucional. Também por isso, Trump está a apoiar, para as primárias para o Congresso 2022, candidatos que desafiem os lugares dos congressistas republicanos que votaram pelo “impeachment” há duas semanas, como foi o caso de Anthony Gonzalez, congressista do Ohio que, por se ter posto contra Trump, se vê agora desafiado no seu estado.

Sejamos claros: tão cedo a direita americana não se livrará de Trump.

Octavio Jones

OS REPUBLICANOS À PROCURA DE UMA NOVA AGENDA... MAS SEM SABER QUAL

Lidar com a maioria do eleitorado que continua a apoiar Trump (um candidato presidencial derrotado e um ex-Presidente a contas com graves problemas judiciais nos próximos tempos) é uma questão complicada e estrutural para o Partido Republicano em 2021.

Vai demorar a ser resolvida, mas está longe de ser a única questão bicuda para que o GOP consiga desenvolver uma agenda política coerente e consistente neste ciclo eleitoral iniciado com as eleições de novembro de 2020, que deu o controlo aos democratas na Casa Branca e nas duas câmaras do Congresso.

Leah Millis

As perdas das corridas para o Senado no Arizona e na Geórgia, e respetivas corridas presidenciais nos mesmos estados, geraram um sentimento de mudança profunda nas escolhas do eleitorado em zonas que, nas últimas três décadas, tinham mostrado uma grande vantagem republicana.

Mesmo durante a presidência Trump, a contradição era clara: temas como a expansão federal dos cuidados de Saúde ou o Acordo de Paris mereciam maiorias claras do eleitorado americano, mas tinham oposição da agenda trumpiana, que os republicanos foram absorvendo desde 2016.

Isso agravou uma tendência que já ocorria antes de Trump e que as eleições de 2020 confirmaram em pleno: o Partido Republicano, sendo uma força política importantíssima em todo o território americano, tem nos dias de hoje essencialmente um domínio no eleitorado branco pouco qualificado – mas está a perder, com uma agenda populista e identitária, a ligação às várias minorias que têm vindo a ascender em número e no envolvimento no processo eleitoral na América.

Isto não é uma condenação: desde que os republicanos saibam interpretar os anseios destes segmentos, vão sempre a tempo de corrigir a plataforma política. Mas enquanto não o fizerem, parecem condenados a ser um partido com menos apoio no todo nacional em relação aos democratas – e até podem começar a perder bastiões no Sul, como se viu no Arizona e na Geórgia, em 2020.

Durante os anos Obama e depois com Trump, os republicanos tinham a máxima “Repeal and Replace ObamaCare” (rejeitar e substituir o ObamaCare). Trump não conseguiu destruir o ObamaCare, apesar de ter tido maioria nas duas câmaras durante dois anos – muito por mérito do falecido senador John McCain (que saudades).

Só que Trump, perito em mobilizar eleitores zangados e furiosos com “o sistema” e “os democratas” e “a herança de Obama”, nunca foi capaz, nos quatro anos na Casa Branca, de mostrar igual eficácia na concretização de objetivos.

Numa frase: Trump mobilizava bem, mas governava mal.

Foi, aliás, profundamente incompetente a fazê-lo. Porque era preguiçoso, conhecia mal os dossiês, não lia papers, dizia que preferia “guiar-se por instintos”, não em estudos e propostas. Deu no que deu.

Kevin Lamarque

A AMEAÇA EXTREMISTA ESTÁ LONGE DE TER IDO EMBORA

4 de março é uma data de risco identificada pelos serviços de inteligência.

As tomadas de posse dos presidentes americanos são a 20 de janeiro, mas a data original foi 4 de março. Ora, muitos dos invasores do Capitólio de 6 de janeiro e outros apoiantes extremistas que acreditam que Trump ganhou a eleição de novembro, estarão a preparar ações de protesto para esta quinta-feira.

Alguns deles acreditam mesmo que Donald Trump irá prestar juramento como Presidente dos EUA, mas como o 19.º depois de Ulysses Grant. Tem a ver, claro, com o grau de narrativa alternativa fantasiosa da “Trumposfera”, descolada da realidade institucional.

Mas não dá para rir.

É um perigo real que as forças de segurança e o sistema de inteligência norte-americano está a seguir com atenção. O FBI detetou planos, já depois de 6 de janeiro, para “rebentar com o Capitólio” e, eventualmente, também para atacar, raptar ou até assassinar membros do Congresso.

Um dos momentos alvo será o primeiro discurso de Joe Biden ao Congresso – que estava previsto para o final de fevereiro e, não por acaso, foi adiado para já “sine die”, mas que deverá acabar por ocorrer ainda neste mês de março.

Yogananda Pittman, a atual responsável pela segurança do Capitólio, avisou que milícias extremistas que fizeram parte do ataque de 6 de janeiro “continuam a procurar formas de rebentar com o Capitólio. Sabemos que esses elementos estão a focar-se agora no momento do Estado da União”.

O lado bom e o lado mau da América nunca param de nos surpreender.

A OPINIÃO DE GERMANO ALMEIDA