Opinião

O cartão amarelo que não se percebe 

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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Comentador SIC Notícias

Despir a camisola aquando da celebração de um golo é proibido pelas leis de jogo. Penso que toda a gente sabe disso. Aliás, basta apenas que um qualquer jogador cubra a cabeça usando essa peça de equipamento para ser sancionado.

A punição prevista nas regras é a exibição do cartão amarelo e não faltam por aí exemplos de jogadores bem-intencionados que foram advertidos e até expulsos (por acumulação de cartões) por festejarem os seus golos dessa forma. Por estarem a saborear aquele que, afinal, é o ponto alto de qualquer jogo: o golo.

Um momento de felicidade pura, pleno de alegria e emoção, em que naturalmente não há qualquer intenção consciente de infringir ou violar as leis de jogo.

Esta previsão legal, instituída há anos, choca quase todos aqueles que gostam de futebol. As pessoas ficam incomodadas com a sensação aparente de injustiça que está subjacente àquela sanção. Sabem que não houve malícia, que daquele gesto feliz e irrefletido não resultou nenhum dano para os adversários e que o jogo não foi afetado, na sua segurança e imagem.

Mas é importante que tenhamos todos a capacidade de ver um pouco mais além. De perceber a natureza das coisas para lá do que ela mostra à superfície.

As leis de jogo são gerais. Aplicam-se a todos os escalões e nas suas diferentes variáveis. Aplicam-se no futebol de formação, no futebol feminino e no futebol masculino. E aplicam-se aqui, em Portugal, como em Madagáscar, na Arábia Saudita ou nas Ilhas Fiji. Aplicam-se em todo o lado, a toda a hora.

Na cultura ocidental - a nossa, tendencialmente mais moderna e de mente aberta - o ato de despir a camisola para celebrar um golo é inocente. Não tem mal nenhum.

Mas em muitos outros sítios há quem pense de forma distinta. Nos países árabes (não todos) e noutros mais fechados, tirar a camisola durante o jogo é mostra de desrespeito profundo pela cultura, ideais e/ou religião locais. É atentado ao pudor. É ofensa grave.

Podemos concordar ou não, mas é fundamental que respeitemos. E, lá está... as leis de jogo não foram desenhadas para caber unicamente nas nossas crenças, credos ou forma de pensar. Ela é universal.
Universal.

E isso aplica-se também à questão de género. Se, no futebol masculino, despir a camisola e ficar em tronco nu pode parecer algo tão inofensivo quanto normal, no feminino a imagem não é exatamente a mesma, sobretudo se as jogadores optarem por não usar indumentária interior. Pode parecer estranho, mas basta pensar nisso e perceber que faz sentido.

Há questões que nos parecem mundanas, irrelevantes e até injustas. E, se calhar, as leis de jogo têm algumas assim, que precisam de revisão urgente. Mas não se esqueçam sempre de pensar primeiro no todo e só depois na parte.

Há decisões que fazem mais sentido do que à primeira vista parecem e esta é claramente uma delas.

PS: Além destas motivações mais estruturais, houve outra que pesou nesta sanção: a de evitar que jogadores pudessem publicitar marcas, produtos ou serviços nas suas camisolas interiores. O futebol também é marketing, mas assim não vale.

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