Opinião

As lágrimas de Futre fizeram-me chorar 

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve sobre aquele que considera ser um dos maiores talentos da história do futebol português, a propósito da homenagem prestada por um político… espanhol.

Circula na net um vídeo de Paulo Futre em que o ex-internacional português — e, adianto desde já, um dos maiores talentos do futebol que vi actuar nos últimos cinquenta anos — revela toda a sua emoção quando é confrontado, num programa televisivo, com as palavras do alcaide de Madrid, que lhe prestou significativa homenagem quando afirmou gostar de ver as suas cinzas depositadas no corredor onde Futre espalhou toda a sua arte futebolística, no Vicente Calderón.

Futre emocionou-se e desatou a chorar e tenho de dizer que aquelas lágrimas não me pareceram apenas um sinal de gratidão para quem as pronunciou, um político da elites espanholas, mas sobretudo um sinal de revolta pelo facto de nunca ter sido reconhecido no país onde nasceu na dimensão correspondente ao seu talento mas também pelo que fez por Portugal.

Com a voz embargada, repetiu: “sou por-tu-guês, car####! Sou por-tu-guês, car####!”

Eu tenho uma espécie de relação sanguínea com o Futre, porque não me esqueço da primeira vez que o vi actuar, num torneio denominado ‘Onda Verde’, era ele um mini-jogador do Cancela, da sua terra natal, Montijo, e eu estava a interessar-me com tudo o que se relacionava com o futebol de base, e passei muitos anos a ver torneios, nacionais e internacionais, tendo-se dado a coincidência de ter sido através de uma minha crónica que o nome dele foi publicado pela primeira vez num jornal desportivo, sobretudo em A Bola, que tinha aquela data uma dimensão extraordinária.

“Está aqui um grande talento!” - foi a mensagem que deixei, tinha Futre uns 10 anos de idade.

Nunca mais o perdi de vista e fiz sobre ele, na fase em que ele se tornou uma promessa para depois se converter numa certeza, as mais diversas considerações, quase todas elogiosas e algumas observações críticas e pedagógicas, no âmbito do Cigarro Futebol Clube, com o qual ‘assinou contrato’ muito cedo…

Com dois grandes craques do futebol português: João Pinto e Paulo Futre, em Madrid

Com dois grandes craques do futebol português: João Pinto e Paulo Futre, em Madrid

Estive com ele no primeiro campeonato da Europa de Juniores, em 1982, na Finlândia e, dois anos, mais tarde, na então União Soviética, em cuja selecção nacional alinhava ao lado de Fernando Mendes, um dos seus grandes amigos na actualidade e companheiro de debate, na pantalha.

Este campeonato, realizado entre Leninegrado (hoje, São Petersburgo) e Moscovo, disputou-se umas semanas antes de começar o ‘Europeu’ em França, no qual pontificava um outro génio do futebol, Fernando Chalana, que também não teve, quando lhe era devido, o reconhecimento dos méritos que merecia.

Eu próprio, nas colunas de A Bola, suscitei o debate se Futre, pelo talento que já exibia, devia ser integrado na Selecção A, ao lado de Chalana, Jordão, Diamantino, Nené, Fernando Gomes, Diamantino, Álvaro Magalhães, Bento, Damas e outros, ou se devia estar presente, como esteve, no ‘Europeu’ de Juniores realizado um mês antes, em terras soviéticas.

Futre em ação no Mundial de 1986, no México

Futre em ação no Mundial de 1986, no México

David Cannon

Defendi a tese de que Futre seria mais útil na Selecção de Juniores, então orientada por José Augusto, porque nessa ele seria titular e preponderante, porque rumar a França corresponderia muito provavelmente a não ser utilizado, uma vez que estava tapado, não apenas pelo maior dos génios, Chalana, mas também por avançados tão categorizados como eram Nené, Jordão e Fernando Gomes.

Tornou-se um ícone do Atlético de Madrid, clube que representou entre 1987 e 1992 e, numa passagem mais curta, em 1998

Tornou-se um ícone do Atlético de Madrid, clube que representou entre 1987 e 1992 e, numa passagem mais curta, em 1998

DENIS DOYLE

É preciso lembrar uma coisa: a FPF, naquele tempo — fim da década de 70 e quase toda a década de 80 — tinha uma estrutura totalmente amadora e não é o que representa hoje, uma estrutura altamente profissionalizada e consciente do poder que pode ter e já tem. Futre era um produto do futebol puro, do futebol de rua, sem meios, sem milhões, sem estádios, sem centros de treino, sem academias, e até sem empresários, ao ponto de se transformar — via negócios — jogadores medianos em supertalentos.

Tantas linhas escrevi sobre os nossos défices, sobre as nossas debilidades, sobre a revolução que era necessária realizar ao nível não apenas das infraestruturas mas também da mentalidade competitiva.

Bati-me muito pela emancipação do jogador português, da sua afirmação no espaço competitivo internacional e fui sublinhando que isso seria possível se recuperássemos o atraso que tínhamos para a Europa moderna ao nível dos estádios e dos centros de formação e se mudássemos a forma de encarar o jogo — com ambição.

Ao serviço do AC Milan, em 1995

Ao serviço do AC Milan, em 1995

CARLO FUMAGALLI

Apareceu a ‘geração de ouro’, como fruto do trabalho que foi possível realizar (muitos estágios, muitos jogos e mudança progressiva da mentalidade competitiva, que nos permitiu ganhar alguns títulos europeus e mundial ao nível das selecções mais jovens) e Futre também foi um pouco prejudicado por isso, porque coexistiu na fase de transição para um Portugal futebolístico cada vez mais maduro, com Luís Figo e depois Cristiano Ronaldo.

Não podia ficar em silêncio perante as lágrimas de Futre.

É tempo da FPF e o futebol português lhe prestarem, em vida, a grande homenagem que merece.

Quality Sport Images

NOTA - Sobre a forma como lidam com ele, hoje e no meio televisivo, e também a forma como gere a sua imagem no ecrã, isso daria para outra reflexão. Mas hoje o que quero deixar bem expresso, para sempre, é a minha admiração pelo grande talento chamado Paulo Jorge dos Santos Futre, nascido no ano em que o grande Eusébio se mostrou ao Mundo.

A PÁGINA DE RUI SANTOS

A PÁGINA DO TEMPO EXTRA

  • 16:26