Opinião

O fim de uma marca, ou duas

Antes de desaparecer a LG disparou muitas ideias como esta, várias fotos num só disparo, que foram adotadas e melhoradas por concorrentes

Lourenço Medeiros

A comunicação é (quase) tudo. A LG acabou de anunciar que vai fechar a parte da empresa dedicada aos telemóveis, e tem muito que ver com a percepção da marca.

A LG já foi a terceira marca mais importante do mundo, fazia aparelhos tão bons que, sendo “obrigado” a testar outros, cheguei a andar com telemóveis LG sem chip só para fazer fotografias e usar aplicações em wifi.

Foram inovadores anos a fio, fizeram ecrãs revolucionários para a Apple, introduziram as grandes angulares a sério, muito antes dos concorrentes e, em consequência, o que chamo o kit do fotógrafo, três lentes (grande angular, normal e pequena teleobjectiva) sem o qual nenhum aparelho de gama alta é digno dessa classificação.

Fizeram gracinhas como o disparo remoto por gestos, deram a hipótese de controlar a maioria dos parâmetros importantes como se faz nas máquinas fotográficas profissionais.

Nos tempos em que os telemóveis não eram todos um ecrã com o menor número de botões possível, foram geniais nos designs apresentados, lembro-me até de um modelo quase todo transparente, mas cada lançamento era um surpresa. Ou seja, estavam quase sempre à frente do seu tempo.

À frente do seu tempo porque introduziram muitas inovações que foram adotadas pela indústria, sem conseguirem inverter a descida nas vendas. Quase sempre, porque nos últimos anos lançaram modelos e programas mal delineados, com conceitos interessantes por detrás, mas que não estavam prontos para o mercado. O segundo ecrã para os modelos topo de gama é um dos piores exemplos, não era prático, tornava os aparelhos um empecilho, sem dar o suficiente em troca.

Antes de desaparecer a LG disparou muitas ideias como esta, várias fotos num só disparo, que foram adotadas e melhoradas por concorrentes

Antes de desaparecer a LG disparou muitas ideias como esta, várias fotos num só disparo, que foram adotadas e melhoradas por concorrentes

Lourenço Medeiros

O mesmo, embora eu goste mais, se poderia dizer do actual Wing, um aparelho grande que se transforma num T com dois ecrãs, sem que traga grandes vantagens. Tiveram alguns problemas de qualidade de fabrico, é verdade. E, nos programas, tentaram insistir em controles por gestos que eram insuportáveis para o utilizador, não funcionavam. Naquele estado nunca deviam ter saído para o mercado, quanto mais serem vendidos como funcionalidades inovadoras.

O Wing é inovador sem dúvida mas ficará como o último da marca.

O Wing é inovador sem dúvida mas ficará como o último da marca.

Lourenço Medeiros

Eu que sou o equivalente a um treinador de bancada porque nunca lancei um telemóvel, diria que faltou estratégia nas direções a tomar quanto ao desenvolvimento e, quando os aparelhos ainda eram mesmo muito bons, a sua divulgação foi uma desgraça. Escrevi muitos textos em que dizia que os aparelhos eram muitos melhores e mais inovadores do que as vendas refletiam. Se calhar, a alguns parecia publicidade, mas sempre foi a minha opinião sincera baseada na experiência com os aparelhos da LG, assim como fui sincero quando a marca perdeu claramente o rumo. Claro que tenho pena de ver acabar uma marca que tanto fez por esta indústria, mesmo que continue a dar cartas em muitos outros sectores. Espero, mas duvido, que as televisões e electrodomésticos, ares condicionados, painéis solares, possam absorver boa parte dos funcionários ligados aos telemóveis.

Uma das fábricas de eletrodomésticos da LG ocupa quase toda a foto, em Gyeongsang, Coreia do Sul.

Uma das fábricas de eletrodomésticos da LG ocupa quase toda a foto, em Gyeongsang, Coreia do Sul.

Lourenço Medeiros

Cheguei a fazer uma visita a várias instalações da marca na Coreia, que muito me impressionou embora, fruto de mentalidades diferentes quanto aos papéis dos media, não tivesse podido fazer a reportagem que, no bom sentido, mereciam.

Discretamente, como é habitual nas más notícias destas empresas, também a Sony anunciou recentemente o fim da sua presença no mercado português de telemóveis. A Sony gastava rios de dinheiro em promoção, muitas vezes mal dirigida. Suponho que continue a fazê-lo noutros países. Lembro uma viagem de helicóptero sobre Barcelona, feita por dezenas de jornalistas, pelo menos, para mostrar a qualidade de imagem de um novo aparelho, mas que não provava nada porque os vidros do heli estragavam tudo, voltas de Ferrari a um circuito profissional que não tinham nada que ver com a performance dos aparelhos, deixavam uma interessante recordação nos que experimentaram, mas todas estas experiências custavam uma fortuna e não provavam nada de nada em relação à qualidade dos telemóveis da Sony. Telemóveis que até são muito bons e muito bem desenhados mas temo, e espero estar enganado, que venham a seguir o mesmo caminho dos LG. São excelentes aparelhos, com ecrãs e câmaras inovadores e de grande qualidade...mas não vendem. Nem cá nem na maioria dos mercados. No caso poderia argumentar-se que são também montras de tecnologia, a Sony ganha dinheiro de outras formas. Grande parte das câmaras fotográficas de outras marcas são Sony, o que quer dizer que também fazem dinheiro com o sucesso dos outros. Mesmo assim, acredito que há uma falta de capacidade de convencer os compradores de que os seus aparelhos têm a qualidade que realmente têm, e isso leva quase inevitavelmente a um caminho com o da LG. A cada marca que cai, perde-se competitividade e capacidade de inovação, perde quem lá trabalha e perdemos todos como consumidores.

Torres gémeas, a sede da LG em Seoul, Coreia do Sul.

Torres gémeas, a sede da LG em Seoul, Coreia do Sul.

Lourenço Medeiros

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