Opinião

Um cinema mais humano

"Crip Camp": memórias de uma luta pelos direitos civis

Nomeado para o Oscar de melhor documentário, “Crip Camp” constitui um belo exemplo de um ancestral poder do cinema: retratar a pluralidade da experiência humana.

Como representar, cinematograficamente, as pessoas com algum tipo de deficiência, seja ela motora, mental ou intelectual? As dificuldades que a pergunta coloca começam, aliás, antes do cinema: sabemos que muitas vezes surgem desacordos sobre as próprias palavras que utilizamos. Daí a defesa de expressões como “pessoas portadoras de deficiência” ou “pessoas com necessidades especiais”.

O assunto envolve uma enorme complexidade, em última instância de natureza cultural. E escusado será dizer que essa complexidade ultrapassa o âmbito destas linhas. Gostaria apenas de chamar a atenção para um belo filme, “Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão” (Netflix), que tem a capacidade de nos expor, com serenidade e amor, uma saga social e política de defesa das pessoas marcadas por algum tipo de deficiência.

Dito de outro modo: não se trata de qualquer abordagem abstracta, mas sim de uma evocação concreta de factos vividos por gente muito real. Crip Camp ficou como designação comum do Campo Jened, no estado de Nova Iorque, que funcionou entre 1951 e 1977. Acolhendo muitas pessoas, na altura marginalizadas, tanto socialmente como no domínio laboral, o Crip Camp foi pioneiro no desenvolvimento de um combate pela igualdade de direitos civis que viria a ter momentos decisivos na década de 90.

O facto de “Crip Camp” estar nomeado para o Oscar de melhor documentário é, além do mais, uma excelente notícia. E não só porque a nomeação vale já como importante reconhecimento do seu valor. Também porque, com ou sem prémios, o filme ilustra um ancestral poder das imagens cinematográficas. A saber: a capacidade de o cinema tratar a infinita pluralidade do factor humano, enfrentado a verdade e desmontando preconceitos.

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