Opinião

Há mais de 12 anos a brincar com o fogo, em breve queimamo-nos 

Portugal não vai escapar ao fim da grande ilusão. A bancarrota nunca esteve muito longe, mas agora está ainda mais perto do nosso país.

À medida que a inflação sobe, os bancos centrais vão ter de reduzir a emissão de dinheiro e aumentar taxas de juro. O risco de subida do custo das dívidas e o subsequente risco de bancarrota de vários países, com grande destaque para Portugal, é cada vez maior. Nenhum político quer ver, muito menos comentar, um cenário de curto a médio prazo que é assustador.

Durante várias décadas, sobretudo após a elevada inflação registada nos Estados Unidos nos anos 70 do século passado, a teoria económica dominante considerava que a política monetária tinha os seus limites: a emissão de dinheiro pelos bancos centrais poderia ajudar e muito no início dos processos de recuperação económica, mas não poderia ser duradoura. Muitos anos de criação de dinheiro a partir do nada levariam à criação de bolhas especulativas nos mercados e à subida descontrolada dos preços dos bens, sobretudo de matérias-primas essenciais ao ciclo económico.

A Alemanha, que nos anos 30 tinha sofrido taxas de inflação inimagináveis, sempre permaneceu muito crítica em relação a políticas monetárias expansionistas para resolver crises económicas e sociais, mesmo durante a após a grande recessão de 2007-2008. Esta atitude esteve na base das chamadas políticas de austeridade expressas na condicionalidade dos programas de assistência financeira da Troika aplicados aos países à beira da falência, com destaque para a Grécia e Portugal.

Nos Estados Unidos da América, o caminho escolhido foi o oposto da austeridade: se há crise nos mercados financeiros que se transmite à economia, então é melhor pôr a máquina de criação de dinheiro a funcionar! Não interessa o défice federal e o de cada estado, gigantescos no somatório, interessa é injetar dinheiro no sistema financeiro, esperando que ele chegue à economia. Assim mandou fazer George W Bush, Barack Obama, Donald Trump e mais recentemente Joe Biden. Assim continua a viver a economia americana, a produzir muito menos do que consome e a cobrir os défices financeiro e económico, público e da totalidade da economia, com a autêntica droga da moeda criada a partir do nada.

Na Europa, Merkel e Sarkozy resistiram enquanto puderam, até que a crise das dívidas soberanas, a pressão das opiniões públicas, dos representantes dos empresários e de vários governos europeus conseguiram a célebre declaração de Mário Draghi: "O BCE fará tudo o que for necessário para preservar o Euro, e acreditem-me, isso será suficiente".

Desde então, o balanço do BCE cresceu tanto, tanto, até ultrapassar o balanço da própria Reserva Federal norte-americana. Os dois balanços juntos criaram uma tão extensa galáxia de dinheiro novo que nunca existiu nada comparável nem de perto nem de longe na História da Humanidade.

Há mais de doze anos que os dois maiores bancos centrais do mundo (além do Banco de Inglaterra e do Banco do Japão) não param de afrontar a primeira lei clássica da criação de moeda: o dinheiro é uma expressão de troca, por isso, a criação de moeda tem de corresponder exatamente à criação de riqueza. Por outras palavras, só devíamos emitir tantos mais euros quanto os que correspondem ao valor do acréscimo do PIB em cada ano, por comparação com o ano anterior. O risco de quebra desta regra sempre foi o aumento descontrolado da inflação.

Durante mais de 12 anos, disse e escrevi que este era, e é, um risco bem real, e avisei que os problemas económicos do Ocidente não podiam estar a ser resolvidos com recurso exclusivo à política monetária. Deixei-o bem claro nos capítulos finais do livro "O Meu Programa de Governo", publicado em 2013. Durante todos estes anos, tanto os meus entrevistados na SIC Notícias como na SIC, entre os quais ilustres economistas, desvalorizaram o risco de inflação associado à criação artificial de nova moeda. Para eles o problema era o contrário, o risco de deflação numa economia europeia envelhecida e pouco propensa ao consumo.

A nível internacional a teoria monetária evoluiu para um entendimento de que a criação de moeda é praticamente a única solução viável para estimular as economias e que a economia mundial está a navegar em águas desconhecidas, cujas correntes e ventos, ou regras, são novas e escapam à teoria clássica.

Assim vivemos até 2019, ano em que os fluxos de turismo, o transporte aéreo, as bolsas mundiais e a economia em geral atingiram novos máximos. Com o impacto recessivo da pandemia do novo coronavírus, a receita para recuperar a economia ocidental foi…mais do mesmo.

Na Europa foi lançado um programa de emergência de 550 mil milhões de euros, acompanhado de um plano de recuperação e de um novo orçamento comunitário de 1,7 biliões de euros. Total do valor dos programas, 2,2 biliões de euros a aplicar em menos de 10 anos. De onde vem o dinheiro para financiar todo este plano? Vem quase todo das rotativas do BCE, porque a poupança existente em cada um dos países da União não chega, nem de perto nem de longe, e a que existe está aplicada em dívida já emitida.

Nos Estados Unidos da América, a febre da criação de dinheiro novo foi ao ponto de se destinar à distribuição de milhões de cheques de 2 mil dólares para cada família. Joe Biden continuou a política de Trump de lançar mega pacotes de estímulo económico, agora para a recuperação de infraestruturas e para financiar a saúde, a educação e a segurança social. Em poucos meses já foram comprometidos mais de 3 biliões de dólares. Tudo para ser financiado com dinheiro novo, porque as poupanças existentes já estavam aplicadas e títulos de dívidas e outros ativos anteriormente emitidos.

E agora, aí está o tardio, mas esperado efeito, depois de muitas bolhas especulativas nas bolsas e muita criação de economia artificial dopada com nova moeda:

A taxa de inflação nos Estados Unidos foi de 4,2 por cento em Abril, por comparação com o ano anterior. Há vários dias que as bolsas estão a cair dos máximos do final de abril e as taxas de juro das obrigações do Tesouro americano a 10 anos estão a subir e já chegam quase aos 1,7 por cento, as do México chegam aos sete por cento e as do Brasil chegaram aos 9,3 por cento.

A inflação está a atacar em todo o lado, mas vai atingir em pleno os países em desenvolvimento que vão sofrer ainda mais que o mundo desenvolvido. E entre os chamados países ricos, vão sofrer mais os que estão mais endividados, com Portugal no triste pelotão da frente.

Esta quarta-feira, Portugal fez uma emissão de dívida pública que nos vai custar mais 80 milhões do que se fosse feita em janeiro. A 15 de dezembro, os juros das obrigações portuguesas a 10 anos eram negativos em 0,05 por cento. Desde então que não pararam de subir, já estão próximos dos 0,6 por cento. Parece pouco, mas a tendência é de subida inevitável à medida que o BCE tiver de começar a subir as taxas diretoras e a cortar no programa de compra de dívida com dinheiro criado a partir do nada. A subida inexorável da inflação a isso vai obrigar e Portugal vai ser apanhado no turbilhão.

Durante alguns anos a Humanidade acreditou que tinha descoberto a fonte inesgotável de riqueza, sem precisar de esforço e trabalho árduo. Em breve vamos todos reaprender a viver com o que produzimos efetivamente, sem a ilusão da droga do dinheiro fácil.

Nesta reaprendizagem vão cair ilusionistas, populistas, políticos, governos inteiros e até regimes político-constitucionais.

Portugal não vai escapar ao fim da grande ilusão. A bancarrota nunca esteve muito longe, mas agora está ainda mais perto do nosso país.