Opinião

Sessão de Cinema: “O Meu Tio”

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O tio e o sobrinho, ou o requintado humor de Jacques Tati

Na história da comédia “à la française”, Jacques Tati é um dos mestres absolutos — com o “O Meu Tio” (1958) arrebatou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

No plano social, a segunda metade do século XX foi muito marcada pela discussão sobre as fronteiras entre as tradições dos espaços rurais e o triunfo dos novos modos de vida e comportamento nas grandes cidades. Grande questão, como é óbvio, que o cinema reflectiu de muitas formas, da s atribulações da comédia à intensidade da tragédia.

“O Meu Tio” (1958), de e com Jacques Tati (1907-1982), é uma das obras-primas que reflecte tal conjuntura de forma exemplar. Estamos, neste caso, no domínio da mais pura comédia, género em que, na altura, Tati já se distinguira, nomeadamente com “As Férias do Sr. Hulot” (1953).

Aliás, em “O Meu Tio”, Tati retoma a personagem do Sr. Hulot, cidadão simpático, de comportamento irrepreensível, ligeiramente distraído, que não se dá muito bem com os artefactos do progresso. O filme divide-se, aliás, em dois mundos sociais claramente diferenciados: de um lado, uma França que se mantém fiel às suas tradições comunitárias, privilegiando o calor das relações humanas; do outro, os conceitos de urbanismo em que a ostentação dos “gadgets” das novas moradias conta mais do que essas mesmas relações. Hulot é, afinal, a personagem que, para visitar o sobrinho, circula entre os dois cenários, num ziguezague sempre pontuado por um desconcertante humor.

Para Tati, este foi, no plano internacional, o momento de maior glória. Primeiro, ganhou um Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes (no ano em que a Palma de Ouro foi para “Quando Passam as Cegonhas”, de Mikhail Kalatozov); depois, em Hollywood, arrebatou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

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