Análise

Trump perdeu a “alma da América”

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Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Donald Trump foi o primeiro Presidente dos EUA a cumprir um mandato inteiro sem nunca ter tido pelo menos metade dos norte- americanos a aprová-lo.

Chega à tentativa de reeleição em sérias dificuldades: está atrás em quase todos os estados decisivos e até corre o risco de perder bastiões republicanos como o Arizona e a Geórgia. A Carolina do Norte, a Florida e o Ohio, que pareciam seguros para o campo Trump há poucos meses, estão também em jogo.

Os três estados “Rust Belt” onde Trump bateu Hillary inesperadamente em 2016 (Wisconsin, Michigan e Pensilvânia) só voltarão a decidir se Trump contrariar as sondagens e acabar por segurar todos os “estados-batalha” acima referidos (não pode perder nenhum).

Se isso acontecer mesmo – resistência Trump na “Sun Belt” e no “Novo Sul” – vai quase tudo jogar-se na Pensilvânia.

Por muito que tenhamos uma perspetiva prudente e defensiva (2016 foi uma grande lição que trava “prognósticos antes de eleições”), fica mesmo muito difícil imaginar como Trump possa surpreender Biden no Michigan e no Wisconsin. Vamos, por isso, atribuir esses dois estados a Biden.

A única forma de Trump obter uma reeleição de última hora é fazer um ‘sprint’ na Pensilvânia, estado que dá 20 Grandes Eleitores. Não é provável, mas não é impossível.

A campanha Trump está a pôr muitas fichas em anúncios na Pensilvânia em que acusa Biden de querer acabar com os empregos no estado, pegando na resposta que o democrata deu no debate de Nashville sobre o “fracking” e a extração de petróleo.

Mas será demasiado tarde para uma viragem significativa. Há quatro anos a surpresa veio pelos indecisos que, à última hora, escolher quase todos o voto em Trump. Desta vez, restam menos de 5% de indecisos – a eleição mais polarizada de sempre dita, também, uma fixação muito evidente dos respetivos eleitorados.

Com enorme vantagem no voto por correspondência e participações recorde dos eleitores que preferiram votar antes de 3 de novembro, Joe Biden é claramente favorito – desde que o processo de contagem e validação desses votos decorra de forma correta e expedita.

Resta a Donald Trump confiar na mobilização do seu “povo” no dia da eleição. Se os democratas têm grande vantagem no voto antecipado, os republicanos devem aparecer muito mais no dia 3 (tendem a desvalorizar o risco da pandemia e a seguir a indicação do seu candidato, que desdenha o voto por correspondência).

Trump ganhou 2016 com plataforma ultranacionalista, anti-globalista, anti-multilateralista, populista e identitária. Apelou ao sentimento de receio de perda de poder por parte da maioria branca em regressão, perante a ascensão das diferentes minorias.

Biden tenta ser o herdeiro da “grande tenda” que é composta por segmentos e sensibilidades muito diferentes (esquerdistas, moderados, independentes, minorias sexuais, raciais, até republicanos descontentes), mas todas com um forte propósito: travar a reeleição de Donald Trump.

Há ainda o fator pandemia: Trump, que ‘flirta’ com movimentos de supremacia branca e capta grupos negacionistas e conspirativos (QAnon), sem nunca assumir compromisso com eles, joga com o sentimento crescente de cansaço em relação à ameaça pandémica; Biden põe foco total em posição responsável, de respeito pela ciência e pela evidência, guiando-se pelas preocupações sanitárias.

A visão do democrata parece mais sensata e cientificamente correta. Mas não é certo que seja essa a perceção clara da maior parte do eleitorado norte-americano. A agulha na Economia, apontada por Trump, tem um peso que não deve ser desvalorizado.

Tudo somado, não me parece crível que a “alma da América” avalize mais quatro anos de Donald Trump.

O modo pouco empático com o sofrimento de milhões de americanos com a pandemia – num constante jogo de negação ou desvalorização da evidência estatística – fê-lo perder o apoio das mulheres brancas instruídas, dos mais velhos e dos eleitores suburbanos.

Ao mesmo tempo, o estilo “terra a terra” de Joe Biden – ele próprio nascido em Scranton, Pensilvânia – deu-lhe mais tração para segurar o Midwest, comparando com a “elitista” Hillary Clinton.

Trump deverá perder pela saturação do estilo “bully” e indecentemente egocêntrico. Por muito que tente uma confusão pegada ao declarar vitória abusivamente nos estados que demorarem a contar os votos por correspondência, isso não alterará o rumo da eleição.

Biden não estimula, mas também não assusta. Deverá ganhar por ser o “tipo decente que garante o regresso à normalidade possível”.

2020 não é 2016.

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