Análise

O Natal, a "caranguejola" e as contas eleitorais nos EUA que não são tão simples como 5+5=5

Aqui a semana tem cinco dias e os temas também são cinco. À sexta-feira, recordamos as notícias que mais marcaram os últimos dias. Pedro Cruz explica as suas escolhas em cinco minutos. É o espaço 5 dias, 5 temas em 5 minutos.

Este ano há Natal?

Já ninguém se lembra, mas esta segunda feira foi dia de luto nacional.

No dia de finados, foi a homenagem da República aos mortos da Covid-19.

Misturado com uma bizarra proibição de circular entre concelhos durante quatro dias.

É o princípio de uma lista de medidas a que nos teremos de habituar para os próximos meses.

Este ano há Natal? Nunca a frase “o Natal é quando um homem quiser” fez tanto sentido.

O Natal preocupa as famílias e os políticos. O Governo e Presidente fazem o possível para ter sol na eira e chuva no nabal, ou seja, perturbar o menos possível, com a máxima eficácia.

É um bom slogan, mas veremos se não passa disso.

Tratar da saúde e segurar a economia, ao mesmo tempo, não parece que vá ser uma tarefa fácil.

Eleições EUA

Trump não desiste, não vai desistir e usará todos os meios legais que tem ao seu alcance para atrasar o mais possível a contagem dos votos e o apuramento de resultados.

Uma personagem como ele não admite perder.

A narrativa do roubo, dos votos falsificados, das recontagens e da conspiração para o correr da Casa Branca cai muito bem no seu eleitorado, já de si radical.

As ruas podem vir a ser palco de confrontos.

Trump resistirá o mais que puder.

Mas há dois dados que convém ter em conta: as sondagens voltaram a falhar e a possível vitória de Biden não foi um passeio no parque.

Há, literalmente, metade da América que quer voltar a ser “grande outra vez”.

Estado de emergência

É uma espécie de estado de emergência “à la carte”, “light” ou – dito doutra forma – um estado de quando um Governo quiser.

As medidas são restritivas, mas não muito. A ideia é não “incomodar”, a menos que seja necessário.

A declaração de emergência, à qual Costa disse que não voltaríamos, mas que também não rejeitou por completo, tem o acordo do Presidente e do PSD.

O bloco central volta a estar unido quando se trata de questões verdadeiramente importantes. Mas o meu ponto é: digam, com clareza, em que estado estamos, ou então ninguém percebe para que serve uma emergência se depois as exceções ao estado serão tantas que de emergência haverá pouco.

Julgamento de Tancos

Numa semana de estado de emergência a chegar e de eleições nos Estados Unidos, o julgamento do roubo e depois do reaparecimento das armas de Tancos tem passado entre os pingos da chuva.

E já aconteceu de tudo.

É um tema que vale a pena ir acompanhando, porque o que está em causa é demasiado importante para a República, para o país e para o Estado.

Roubar armas a militares é como assaltar uma esquadra.

E a novela da encenação da recuperação das armas está ao nível de um guião de teledrama mexicano, mas dos maus.

Mais uma vez, era bom que no final do julgamento percebêssemos, todos, o que aconteceu. E quem são os responsáveis.

Como Marcelo sempre disse, “doa a quem doer”.

Depois da “geringonça”, a “caranguejola”

Um acordo à esquerda fica conhecido com “a geringonça”, um acordo à direita será batizado pelos açorianos “a caranguejola”.

O Chega! já pôs o pé na porta: além da eleição para o parlamento açoriano, acaba de negociar com o PSD Açores o apoio a um governo de direita, que vai tirar do poder o PS e a Vasco Cordeiro.

Costa nem, se pode queixar: está a provar do seu próprio veneno. Vai atacar com o facto de o Chega! fazer parta da solução. Mas a lógica matemática que levou à geringonça é a mesma que leva à caranguejola. E quando se governa com contas de somar, o resultado pode ser... este.

O meu ponto é que este acordo legitima o Chega!, normaliza um partido extremista, aplaina disparates sem sentido e abre a porta a que Ventura seja olhado como um parceiro igual aos outros.

De facto,"a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros", como bem disse Churchill.

Mesmo quando não gostamos do resultado.