Joaquim Franco

Quando o exemplo vem de cima

Depois de uma década de pressão, cercada pelos casos de pedofilia, pelas revelações do Vatileaks – escândalo que deu a conhecer guerras palacianas pelo poder, contas mal explicadas no Banco do Vaticano e um alegado escândalo sexual com clérigos ligados à cúria –, depois da resignação de um Papa que denunciou divisões na hora da saída, a Igreja conhece um líder «messiânico». Não no sentido teológico do termo, é evidente.

Tal era a expectativageral e o quase desespero entre católicos. Exemplo e palavra(s) de Bergogliocalçam como luva nas «esperas» deste tempo. Marcelo Barros, ecologista eteólogo – sobrevivente da Teologia daLibertação –, adianta que até os cardeais eleitores, que maisentusiasticamente votaram nele, estão "surpreendidos".

O «messianismo» deBergoglio também encaixa – mas ultrapassará... – no modelo de Inácio Ramonet (Tirania da Comunicação, 1999, Campo dasLetras), que desenvolveu a ideia de um “messianismo mediático” promovidointencionalmente pela(s) máquina(s) de marketing. A «imagem» é umapreocupação devidamente trabalhada na Santa Sé.

Depois de ser capa emrevistas emblemáticas, pela primeira vez há um Papa que é motivo único eexclusivo para o lançamento de uma revista temática, uma espécie de publicaçãopara fãs. Da noite para o dia surgiu numa parede de Roma um Papa «super-homem».A inesperada ousadia de um artista de graffiti retratou o «ícone»mediático que mais prevaleceu no primeiro ano de pontificado. Mas este «ícone»apressou-se a esclarecer que não se revê na euforia, eventualmente apenas naalegria.

Na primeira viagem aoestrangeiro, Francisco foi acolhido por milhões na praia de Copacabana ondeapelou aos jovens cristãos para serem coerentes, visitou uma favela do Rio deJaneiro e lembrou que não há segurança sem atenuar as desigualdades sociais. Naexortação apostólica Evangelii Gaudiumacusou o sistema capitalista de desenvolver uma economia que “mata” e denunciouos lucros “de poucos”, que “crescem exponencialmente”, enquanto “os da maioriase situam cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz”.

O que maissurpreende... é a surpresa com que o mundo – até os católicos – vai acolhendoestas palavras. Na verdade, Bergoglio apenas cede a voz e disponibiliza aatitude para «centrar» a mensagem. A documentação que sustenta a DoutrinaSocial da Igreja é fértil. Há dias, enquanto arrumava papeis, tropecei no textode João Paulo II para o dia mundial da Paz de 1993. Lá relembrava o PapaWoityla, citando a encíclica CentesimusAnnus, que “os bens da terra são destinados a toda a família humana e nãopodem ser reservados para uso exclusivo de poucos” e que os mecanismoseconómicos precisam das “correções necessárias que lhes permitam garantir umamais justa e equitativa distribuição dos bens”. 

Nos primeiros diasenquanto Papa, Bergoglio fixou três ideias inquestionáveis no contexto da fécristã: pobreza (prioridade para as periferiassociais e existenciais), inclusão (“a misericórdiaé maior do que o preconceito”) e relação (a ternurana disponibilidade para o encontro, tambémcom outros credos).

Sem perder tempo commanifestos de aniversário, Bergoglio deixou passar quase em branco o primeiroaniversário do pontificado e regressou de um retiro para insistir no discursosocial. Recebeu em audiência os trabalhadores de uma fábrica italiana,recentemente comprada por um grupo alemão, e voltou a criticar um sistemaeconómico "incapaz de criar postos de trabalho”, porque põe no centro “oídolo dinheiro", que afeta "vários países europeus"."Criatividade e solidariedade", com um estilo de vida "maissóbrio", sugere Bergoglio, que carrega a vivência do hemisfério sul, daperiferia e dos extremos.

Esta oportunaobsessão pode ser dirigida à Igreja europeia, esmoler e pouco empreendedora.Vai valendo a ação de muitas instituições. Por cá, algumas Caritas,Misericórdias e outras IPSS's de e da Igreja, rompem a lógicaassistencialista com projetos de (re)conversão social, capazes de repor adignidade e agir politicamente onde a política «formal» não é capaz de chegar.Mas falta a correspondência de uma narrativa institucional clarificadora edenunciante. A hierarquia eclesiástica instalou-se. Receosa de ser confundidacom as motivações sindicais ou partidárias – como se a política, em si, fosseum mal –, a Igreja vai oferecendo a resignação, a paciência e o céu, quando oevangelho é da terra, da denúncia e da ação.

Não é sério tomar aparte como o todo. Como não é justo que a maioria apague a exceção. E háexceções. Mas prevalece a timidez e extrema cautela nos discursos doepiscopado. Os índices de pessimismo aliados aos últimos dados estatísticossobre a pobreza em Portugal e à relação desta com o drama da natalidade, deviamsoltar gritos dos altares para abanar seriamente as consciências. A Igreja “temmedo”, mudou o Credo, lamenta o bispo emérito de Setúbal Manuel Martins, agoraé "creio na Santa Igreja católica, apostólica e... adormecida!" 

Num desconcertanteimproviso, Francisco desafiou os cristãos a implicarem-se na política, “uma dasformas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum”. É fácil “atirarculpas” – constata –, mas o que fazem para mudar o estado da arte? – pergunta.

Mesmo não parecendo,a intervenção de um Papa, como a de qualquer protagonista institucional, ésempre política, externa e internamente. Francisco escapa no entanto aospadrões convencionais. Quando deseja “uma Igreja pobre e para os pobres” e citao evangelho para questionar a praxis – “quem sou eu para julgar?” –,abre caminho a uma «revolução» que não é de «esquerda» nem de «direita», éherdeira de uma experiência genuína, de uma teologia ctónica e humana, marcadapela coerência, na ética e na moral da relação.

Por ser simples edireto, no equilíbrio entre a emoção e a razão, o papa Bergoglio surpreende edesinstala. O que não agrada a muita gente, sobretudo aos poderes que «reinam»no tempo e no templo. O “verdadeiro poder é o serviço”, diz, chocado com osclérigos que adquirem carros topo de gama. Metáfora? Para servir não é precisoviajar em primeira classe. E “há gente na Igreja que anda muito atenta para verquando é que o Papa mete o pé na argola”, verifica o teólogo Henrique Pinto.

Tantas vezesindiferentes aos problemas concretos do povo, os púlpitos fazem eco de umescandaloso aconchego à rotina e ao vício do poder. Novidade? Não! É a Igreja ea circunstância. Foi assim ao longo da história, apesar das vozes proféticasnas bases de cada tempo, como a de Francisco, o de Assis. Acontece que, comBergoglio, o exemplo vem agora de cima. Uma tremenda ironia! Não estranhe se um dia destes aparecer uma «seita»contagiante, com muitos e novos fiéis. É a Igreja de Francisco, o de BuenosAires. «Messiânico» em carne e osso, com virtudes e defeitos, e que não gostade viver sozinho.

Sugestões de leitura:João XXIII, um pai para todos (Texto) de Patricia Treece; Lutero(Presença) de Pe. Carreira das Neves; A noite do Confessor (Paulinas) deTomás Halik.