País

Sempre, sempre ao lado do Jornalismo

NO JORNAL DE DOMINGO

O Jornal de Domingo convida-o para uma viagem por oito diferentes profissões, antes e depois do dia 25 de Abril de 1974. Através do testemunho de um protagonista mostramos como era trabalhar antes da revolução, o que mudou logo a seguir e como se está hoje em cada uma das áreas que escolhemos. Este domingo e com a ajuda de Mário Zambujal, entramos no mundo do jornalismo quando ainda havia censura prévia a tudo o que era publicado.

Preza o isolamento, mas vive da comunicação. Das páginas de jornal às dos romances que burila há mais de 30 anos, Mário Zambujal saboreia a conversa que o desafiamos a ter sobre o jornalismo, antes e depois de 1974. Nascido no Alentejo, cedo foi viver para o Algarve onde começou a publicar os primeiros contos, num jornal da região.  Fazer da escrita profissão nunca foi plano de vida, garante. Simplesmente aconteceu. Afinal, jogar futebol e ir aos bailes era diversão quanto bastasse para ocupar as vontades do adolescente Mário.

Quis o destino que a pena lhe andasse leve na mão e que um professor reparasse, adivinhando-lhe sorte diferente: vir para Lisboa escrever nos grandes jornais da capital. Passou por tantos quantos os passos bem sacados de um chá-chá-chá tão em moda nos anos 50 e 60. De "A Bola", onde começou, ao "Tal e Qual", passando pelo "Diário de Lisboa", pelo "O Jornal" e pela criação do semanário "Se7e", numa lista longe de estar completa.

Não teria perdão esquecermos o jornal "O Século", onde Mário Zambujal foi apanhado na curva da revolução. Seriam para aí umas duas da manhã quando o telefone tocou. Do outro lado da linha: "Mário, estão soldados a saltar o muro da Emissora Nacional!". Exclamação imediata: "É pá, é hoje!". E foi. Foram dias sem ir a casa. "O Século" em edições atrás de edições, comendo o espaço dos vespertinos, querendo guardar os factos ainda tão carregados de novas emoções.

Mário sorri sempre, mesmo quando recorda a confusão que se seguiu. Da mordaça ao grito a plenos pulmões, em praça pública. Do tristemente famoso lápis azul ao celebrado arco-íris de opinião. Da censura prévia e da autocensura aos plenários por isto e por aquilo. Era preciso reaprender a andar e Mário Zambujal exigia garantir a viagem do jornal, todos os dias, até às bancas de Norte a Sul de Portugal. Prioridades, por vezes, invertidas pela ansiedade das redações em discutir tudo ou quase tudo.

Acabaria por sair de "O Século" em 1975, pouco tempo antes do jornal fechar.

Hoje aos 78 anos, Mário Zambujal recorda a ideia romântica que havia do jornalismo. Alerta para os cursos de jornalismo que diz haver em excesso. E partilha uma convicção: um jornalista é maior ou menor em função que credibilidade que tem, num mundo onde a expressão "ditadura das audiências" se tornou tão banal como foi em tempos a "ditadura nacional".

Fez-se noite em Lisboa, mas a conversa não se faz velha com alguém, como Mário Zambujal, que procura estar sempre, sempre ao lado do jornalismo, afinal, um dos prazeres dos amantes da vida.

Jornalista: Catarina Neves

Imagem: Humberto Candeias

Edição de imagem: Andrés Gutierrez

Grafismo: Isabel Cruz