País

Porto Editora deixa aos professores decisão de estudar versos omitidos de Pessoa

Para os autores do manual, deve ser o docente a decidir se têm condições para abordar os versos em falta.

A Porto Editora omitiu do manual de Português do 12.º ano versos de um poema de Fernando Pessoa por possuir "linguagem explícita" e abordar a pedofilia, defendendo que cabe aos professores decidir se estudam os referidos versos.

Três versos do poema "Ode Triunfal", de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa, foram substituídos por um tracejado no manual Encontros do 12.º ano, da Porto Editora.

Por opção editorial desapareceram as seguintes frases: "Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas"; "E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada".

Segundo uma declaração assinada pela equipa de autores de Encontros 12 e enviada para a Lusa pela Porto Editora, o poema "está disponível na íntegra no livro escolar Encontros - 12.º ano, na versão do professor".

Os autores do manual escolar acrescentam que na versão do professor estão sinalizados os versos omitidos na edição do aluno e assim "os docentes podem decidir se abordam em contexto de sala de aula - e de que forma - versos que têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia".

A Porto Editora assume que retirou os versos, mas sublinha "a indicação de que os versos foram cortados é visível tanto graficamente (linhas a tracejado) como através da numeração das linhas".

Para os autores do manual, deve ser o docente, tendo em conta "as características específicas de cada turma", a decidir se têm condições para abordar os versos em falta.

"Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos", acrescentam em resposta à Lusa.

A Porto Editora recusa que tenha havido qualquer tentativa de censura da obra de Fernando Pessoa, garantindo que se tratou "apenas e tão somente uma preocupação didático-pedagógica - seguida pela generalidade dos manuais existentes - que permite aos professores decidirem livremente sobre a abordagem mais adequada junto dos seus alunos".

Lusa