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Ordem dos Médicos vai analisar suspeitas de resultados falseados no Hospital de Cascais

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Hospital de Cascais acusado de alterar resultados clínicos e algoritmos da triagem da urgência, apurou ma investigação SIC.

O bastonário dos médicos manifestou-se hoje preocupado com as suspeitas de resultados clínicos falseados e alterações no sistema de triagem na urgência do Hospital de Cascais e afirma que a Ordem vai intervir para analisar a situação.


Um grupo de antigos e atuais profissionais do Hospital de Cascais acusa a administração de falsear resultados clínicos e algoritmos do sistema de triagem da urgência para aumentar as receitas que são pagas à parceria público-privada, segundo uma reportagem divulgada na segunda-feira à noite, pela SIC.

"A reportagem causou-me preocupação, é uma situação que considero particularmente grave, sobretudo a alteração da prioridade dos doentes em contexto de serviço de urgência", referiu Miguel Guimarães aos jornalistas à margem da Comissão de Saúde do parlamento, onde hoje foi ouvido.


O bastonário adiantou que a Ordem dos Médicos "vai intervir para perceber o que está a acontecer", pedindo para ter acesso a todos os dados sobre esta matéria, até porque isso diz respeito "à qualidade dos cuidados" de saúde prestados aos utentes.


"Se existirem provas, e até me custa a crer que os profissionais de saúde tenham feito isso, de que existem indicações e de que é dada uma prioridade diferente daquela que o doente tem, isto deve ser levado até ao fim e os responsáveis devem ser penalizados duramente", acrescentou.


A SIC relatou que as denúncias em relação ao Hospital de Cascais já chegaram à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde e ao Ministério Público.


Atuais e ex-funcionários ouvidos no âmbito da reportagem denunciam que eram impelidos a aligeirar sintomas ou o caso de doentes, para que os algoritmos da Triagem de Manchester dessem uma cor de pulseira verde em vez de amarela, por exemplo, para que os tempos máximos de espera não fossem ultrapassados. A Triagem de Manchester define, através de cores, a prioridade dos doentes em urgência.


O incumprimento dos tempos de espera pode fazer o hospital incorrer em penalizações financeiras.


"É o que consta do contrato entre a entidade gestora do Hospital de Cascais - o grupo privado Lusíadas - e o Estado. Tal como os outros hospitais com parcerias público-privadas (PPP), as urgências em Cascais são pagas com base na disponibilidade do serviço, o que implica cumprir os tempos de espera", recorda a SIC na reportagem.


A SIC, que também ouviu doentes tratados na instituição, dá ainda conta de suspeitas de acrescento de informação clínica nas fichas dos doentes, alegadamente para aumentar a severidade e as comorbilidades dos utentes.


Isto serviria para influenciar o financiamento que o hospital recebe, que é calculado através do "case-mix", um índice de ponderação da produção de um hospital que reflete a maior ou menor complexidade das situações.

Com Lusa