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Pai de português morto em operação policial em Londres critica atuação da polícia

Henry Nicholls

Jovem português morreu em 2017.

O pai do jovem português Edir da Costa, morto durante uma operação policial em Londres em 2017, lamentou esta quinta-feira a forma como os agentes atuaram e considerou "muito perturbador" que não tenham percebido que o filho estava a sufocar.

"Edir não merecia morrer da maneira que ele morreu e nós sentiremos sempre que, se as coisas tivessem sido feitas de maneira diferente, a vida dele poderia ter sido salva", afirmou Ginário da Costa, após o resultado de um inquérito em Londres às causas da morte, há dois anos.

Um júri decretou hoje, por maioria de nove dos onze elementos, que o português morreu "por acidente" de encefalopatia hipóxico-isquémica "como consequência da uma paragem cardiorrespiratória depois que a via aérea superior ter ficado obstruída por um saco plástico contendo drogas que ele tinha colocado na sua boca".

O inquérito, realizado pela magistrada ['coroner'] responsável pela zona leste da Grande Londres, Nadia Persaud, ao longo de cinco semanas, determinou que as vias respiratórias do português ficaram obstruídas devido a 88 embalagens de plástico com droga que colocou na boca.

Este tipo de inquéritos ['inquest'] são feitos no Reino Unido sempre que é registada uma morte sem causas naturais para apurar o motivo e circunstâncias.

Edir Frederico da Costa, de 25 anos, conhecido por Edson, foi detido por agentes do Serviço de Polícia Metropolitana (MPS) em Newham, no leste de Londres, por volta das 22:00 no dia 15 de junho de 2017, quando cinco agentes mandaram parar o automóvel onde estava o português.

O português resistiu à detenção, e os agentes, que se preparavam para o revistar, forçaram-no a deitar-se no chão com a cara para baixo, tendo usado gás pimenta para ajudar a controlar o suspeito.

Ginário da Costa disse que custou ouvir durante os testemunhos, que referiram que o gás pimenta foi aplicado a poucos centímetros de distância da cara, e que os polícias não perceberam que o filho estava a sufocar, só prestando assistência quando perdeu os sentidos.

Edson da Costa foi transportado para um hospital local e hospitalizado, permanecendo em coma até morrer no dia 21 de junho de 2017.

"A Polícia Metropolitana deu a morada errada ao Serviço de Ambulância de Londres, levando a um atraso na chegada dos serviços de emergência. Não podemos deixar de nos questionar se o Edir poderia estar ainda entre nós se a polícia tivesse identificado o risco de sufocação mais cedo e tomado medidas para ajudá-lo", comentou o pai, através de um comunicado da organização INQUEST, que prestou assistência jurídica.

Num comunicado emitido também hoje após conhecido o resultado do inquérito, a polícia lamentou a morte, mas lembrou que uma investigação da Agência Independente para a Conduta Policial (IOPC) britânica, entidade responsável pela investigação de morte ou casos suspeitos do uso excessivo de força pela polícia, concluiu que a força usada para fazer a detenção foi necessária e proporcional.

"Os oficiais que lidaram com o Sr. Da Costa naquele dia agiram corretamente em circunstâncias muito difíceis, como parte do seu trabalho prioritário para combater a violência e o tráfico de drogas em Newham e proteger a população", disse o comandante Dave Musker, responsável pelas operações de polícia.

Porém, acrescentou, a polícia metropolitana de Londres reviu a forma como os agentes lidam com suspeitos que colocam objetos como sacos de droga na boca, e que esta faz agora parte da formação dos polícias.

Quanto aos agentes envolvidos na operação que resultou na morte de Edir da Costa, no seguimento da investigação da IOPC, três vão ser admoestados, um devido a um comentário feito na altura e dois por não terem chamado uma ambulância imediatamente.

Um quarto agente também vai receber uma advertência por não ter chamado uma ambulância imediatamente e vai ser chamado a responder internamente por má conduta interna devido à forma como aplicou o gás pimenta.

A INQUEST enfatizou o facto de de homens negros morrerem desproporcionalmente em operações policiais no Reino Unido e que Edir, com origens na Guiné-Bissau, foi um dos quatro homens negros que morreram durante manobras de contenção da polícia em apenas cinco semanas em 2017.

Lusa

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