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Padre rebelde readmitido no Funchal mais de 40 anos depois

A história do padre Martins é inseparável das convusões sociais e políticas na Madeira, após o 25 de abril de 1974.

A diocese do Funchal revogou a suspensão "ad divinis" aplicada ao Pe. Martins Júnior.

Com esta decisão, a Igreja tenta pôr fim a um diferendo que vem de julho de 1977, quando o então bispo D. Francisco Santana suspendeu o pároco da Ribeira Seca, Machico, sob pretexto de que tinha uma actividade política contrária às orientações católicas.

O atual bispo do Funchal, D. Nuno Brás, entende que "passados estes anos, as razões primeiras que levaram à aplicação e manutenção dessa pena deixaram de existir". Depois de "ouvido o Rev.do Padre Martins Júnior e os Conselhos Episcopal e dos Consultores", o prelado "decidiu revogar a referida pena de suspensão" e nomear o Pe. Martins como "Administrador Paroquial da Ribeira Seca", uma função habitualmente transitória para a nomeação de um novo pároco.

A história do padre Martins é inseparável das convusões sociais e políticas na Madeira, depois do 25 de abril de 1974.

Conhecido pelas posições contra a guerra colonial e pela sintonia com os ideais da esquerda, o padre Martins defendia os agricultores do Machico, que eram obrigados a pagar pesadas rendas aos proprietários. Ainda em Novembro de 1974, o bispo do Funchal pediu a intervenção policial paera o expulsar da paróquia da Ribeira Seca, mas os paroquianos blindaram as instalações durante duas semanas e organizaram manifestações junto ao paço episcopal. Martins Júnior manter-se-ia em funções, mas seria suspenso "ad divinis" - impedindo o sacerdote de celebrar missas e ministrar os sacramentos - pelo prelado em 1977. Uma pena reconfirmada pelo sucessor, D. Teodoro de Faria.

Em 1985, a polícia ocuparia a igreja da Ribeira Seca durante três semanas, mas o padre Martins continuou a celebrar missa com os paroquianos fora das instalações paroquiais e a população recusaria um novo pároco. Martins Júnior voltou à paróquia e foi alvo de um processo crime por "abuso de designação, sinal ou uniforme". A concordata entre o estado português e o Vaticano entretanto mudou, e o processo caiu.

O caso do padre Martins Júnior teve durante décadas grande impacto político e religioso na Madeira, sendo o sacerdote considerado o principal inimigo público de Alberto João Jardim. É também conhecido por defender posições heterodoxas em relação à doutrina católica, como o "sim" no referendo sobre o aborto ou o direito à "eutanásia". Em 1995, recebeu as insígnias de Comendador das mãos do Presidente da República, Mário Soares.

O anterior bispo do Funchal, D. António Carrilho, iniciou o diálogo com o padre Martins Júnior para resolução do diferendo e a possível reintegração formal. Passo dado agora pelo novo bispo, D. Nuno Brás, que assumiu funções em 2018. Martins J+unior sempre reclamou inocência e refutou as acusações que levaram à suspensão "ad divinis". Compositor e instrumentista, é também autor de vários livros e discos, tendo ajudado a conservar o cancioneiro madeirense.

  • A história do padre rebelde da Madeira
    28:25

    Vidas Suspensas

    No "Vidas Suspensas" desta semana, o caso do padre Martins Júnior. Há 40 anos, foi suspenso por se ter envolvido ativamente na política, mas o padre desobedeceu e continua a fazer casamentos e batizados à margem da Igreja.

  • O padre rebelde da Madeira
    0:51

    Vidas Suspensas

    A lei canónica é clara: os padres não podem ser deputados, nem colaborar com partidos políticos. Para a Igreja Católica, José Martins Júnior violou a norma mais do que uma vez, pois além de padre foi também presidente de câmara e deputado regional da Madeira. Por isso, foi-lhe dada ordem para entregar as chaves da igreja da Ribeira Seca, a sua paróquia. Já passaram 40 anos e o padre nunca obedeceu, alegando que não lhe tinham dado o direito à defesa. O episódio Vidas Suspensas (terça-feira, no Jornal da Noite da SIC) conta a história desse braço de ferro entre o bispo do Funchal, que tem do seu lado as leis da Igreja, e o “padre rebelde”, que tem o apoio do povo da Ribeira Seca, a quem nunca faltou, fosse nos momentos de festa, em dias de casamento ou batizado, fosse em dias tristes, de funeral ou de outras tragédias.

  • Padre ameaçado com a igreja cheia de fiéis
    0:58

    Vidas Suspensas

    Para a Igreja Católica, Martins Júnior violou a lei canónica que diz que os padres não podem ser deputados, nem colaborar com partidos políticos. O impasse durou 3 anos, até que se deu um "enfrentamento". A Igreja Matriz do Machico estava cheia, com 300 jovens e familiares prontos a participarem na missa e na cerimónia do crisma, quando foi ameaçado.

  • "Perigoso comunista"
    0:29

    Vidas Suspensas

    Nos anos quentes da revolução, ao misturar a função de padre com a de ativista social e político, Martins Júnior foi rotulado de "perigoso comunista", uma das razões para o então bispo do Funchal querer vê-lo longe dali, noutra paróquia, ordem que o visado nunca aceitou.

  • O padre que foi acusado de desobediência
    1:04

    Vidas Suspensas

    O padre José Martins Júnior foi acusado de desobediência e de exercer funções ilegitimamente, numa atitude de rebeldia. Suspenso, ficaria proibido de celebrar missas, casamentos e batizados, presidir a funerais, tocar os sinos da Igreja e organizar festas e procissões. O próximo episódio de Vidas Suspensas, terça-feira, no Jornal da Noite da SIC, é testemunha desse braço de ferro que se prolongou por muitos anos e que era do conhecimento de toda a ilha. O bispo chegou mesmo a usar a homilia para apontar o dedo ao "traidor".

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