País

O caso do bebé que nasceu sem parte do rosto

Teresa Crawford

Rodrigo nasceu sem olhos, nariz e parte do crânio. As malformações não foram detetadas pelo obstetra.

Na quinta-feira o Ministério Público abriu um inquérito ao caso de Rodrigo, o recém-nascido que nasceu em Setúbal, a 7 de outubro, com malformações graves não detetadas durante a gravidez.

O bebé, que completa esta sexta-feira 11 dias de vida, não tem olhos, nariz, nem parte do crânio. A mãe, que foi acompanhada por um obstetra numa clínica privada daquela cidade, não foi informada durante a gravidez de qualquer malformação.

Só na realização de uma ecografia 5D noutra clínica é que os pais foram alertados para esta possibilidade. O médico que os seguia desvalorizou a situação, garantindo que estava tudo bem. As complicações só viriam a ser confirmadas depois do parto.

À SIC, a madrinha do bebé, Tânia Contente, explica que o recém-nascido “está entregue à sorte” e que a esperança é praticamente nula.

OBSTETRA TEM OITO QUEIXAS NA ORDEM DOS MÉDICOS

O médico em causa, Artur Carvalho, trabalha no Hospital São Bernardo, em Setúbal, e na clínica privada Ecosado junto à unidade hospitalar. O Ministério Público já o tinha investigado, em 2011, num caso de contornos semelhantes. O processo acabou por ser arquivado.

Na Ordem dos Médicos foram apresentadas oito queixas contra Artur Carvalho, sendo que quatro estão em fase de instrução.

Entretanto, a SIC contactou a Ecosado, onde este obstetra é sócio gerente. A clínica alega que ninguém da direção se encontra nas instalações e que o médico em causa não presta declarações.

Centro Hospitalar de Setúbal abre inquérito

O Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) anunciou esta sexta-feira a abertura de um inquérito para apurar se foram efetuados corretamente todos os procedimentos no parto de Rodrigo.

Em comunicado, informam que o clínico não realiza ecografias obstétricas no Centro Hospitalar de Setúbal, nem desempenha cargos ou funções de chefia no Hospital de São Bernardo, onde se realizou o parto.

De acordo com o CHS, "a criança e a família têm sido acompanhados no Serviço de Pediatria com o apoio da Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos Pediátricos do Centro Hospitalar de Setúbal".

Os alertas e esclarecimentos

O presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia lamenta que haja muitos médicos a fazer ecografias a grávidas sem a devida competência, lembrando que ter a especialidade de obstetrícia não é suficiente para realizar ecografias obstétricas.

"Infelizmente há muitos colegas meus a fazerem ecografia, nomeadamente morfológica - que diagnostica malformações - e que não têm competência para isso. Isso não é uma competência adquirida pelo facto de ter a especialidade, é pós-graduada em relação à especialidade".

O presidente do Colégio de Obstetrícia da Ordem dos Médicos diz que há vários fatores que contribuem para que malformações não sejam detetadas nas ecografias. No entanto, João Bernardes diz que são raras as vezes em que não são detetadas.

Sobre a realização destes exames por médicos sem as devidas competências ou requisitos exigidos, explica que estes podem incorrer num processo disciplinar.

Esses requisitos passam por um treino prolongado nessa área num centro idóneo, pela frequência de ações de formação e por demonstrar que se trabalha nessa área especifica pelo menos 50% do tempo, esclareceu João Bernardes.