País

O carrinho de rolamentos do António

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Se o homem já sabia andar de bicicleta naquela geringonça, porque raio vai agora num carrinho de rolamentos?

O António sempre gostou de desafios impossíveis para a maioria. Ele, e outros primos, herdaram de família um brio e capacidade únicas de conseguirem fazer tudo e construírem pequenas coisas, raras e difíceis mas de grande utilidade.

Tinhamos uns 12 anos quando um dia me chamou para me mostrar uma tábua e umas rodinhas com esferas que tinha reunido: "Vamos fazer um carrinho de rolamentos!" Eu, que não herdei a habilidade da família, ainda estou a ver-me meio atordoado, antes de esboçar um qualquer "e isso serve para quê?"

Não me recordo como mas, comigo no papel de mero observador para alcançar martelo e pregos, o "veículo" ficou pronto num abrir e fechar de olhos "para fazermos corridas!" com os mais velhos, como prometia o António.

Veículo concluído, já a rolar, e o meu ceticismo piorou muito. O carrinho de rolamentos descia a rua, ora aos zigue-zagues ora a alta velocidade, obviamente sem travões, sempre na iminência de um estampanço. Desisti à primeira. Mas o António carregava-o de volta, entusiasmado rua-acima, para cada nova aventura rua-abaixo. Acho que ainda nenhum sabia o exato significado da palavra adrenalina mas para quem já tinha uma bicicleta aquela coisa não me parecia uma boa opção.

Esta recordação vem a propósito duma conversa recente com um dos atores políticos da Geringonça. "Então, já começaram a construir o novo veículo?" atirei para ouvir de volta uma desconcertante resposta, imediata: "Qual? O carrinho de rolamentos?!"

Que sim. E anda? - perguntei. "Enquanto for a descer, é fácil! O problema é quando for preciso subir", sentenciou.

Plim! O carrinho de rolamentos do António... Igual ao do meu primo António. A descer é só adrenalina. O problema, como eu pensava já lá vão umas décadas, é carregar com ele a subir, para poder descer outra vez... E outra vez sem travões, não vai estampar-se?! E qualquer abano, sem volante, começa aos zigue-zages. Vai o António Luís conseguir andar nisto durante 4 anos? O António José, o meu primo, se bem me lembro, não aguentou tanto tempo...

Quanto a mim, isto levou-me de volta àquela pergunta dos meus 12 anos, adaptada à circunstância: mas se o homem já sabia andar de bicicleta naquela geringonça, porque raio vai agora num carrinho de rolamentos?

A resposta dependerá muito da paciência dos implicados. Pela minha parte reservo quem deixou um belo nome de batismo para o novo veículo que o António Luís terá escolhido para governar.

Como na adolescência do meu primo António José, há pelo menos duas coisas que parecem claras: o jeito e gosto dos dois para desenvolverem projetos difíceis e a partilha do vício pela adrenalina.