País

Prisa vai desencadear contra a Cofina "todas as ações" previstas no acordo de venda da TVI

Nacho Doce

Mário Ferreira, parceiro da Cofina na compra da Media Capital, confessou "grande surpresa" com o cancelamento da operação.

A desistência hoje anunciada da compra da Media Capital pelo grupo Cofina, após falhar o aumento de capital que financiaria o negócio, é a terceira tentativa gorada de alienação do grupo de media pelos espanhóis da Prisa.

Em comunicado, o grupo espanhol de empresas de comunicação social já anunciou que vai desencadear contra a Cofina "todas as ações" previstas no acordo de venda da TVI ao grupo de Paulo Fernandes, enquanto o empresário Mário Ferreira, parceiro da Cofina na compra da dona da TVI, confessou à Lusa "grande surpresa" com o cancelamento da operação.

"Da minha parte cumpri com aquilo a que me comprometi, subscrevi todo o montante do capital que me pediram e me facultaram para subscrever. De facto, foi para mim uma grande surpresa", afirmou Mário Ferreira.

Acrescentou ainda que "a decisão foi tomada pelos acionistas da Cofina" sem que ele "tenha sido consultado". Garantindo não ter recebido qualquer comunicação prévia por parte do grupo de Paulo Fernandes quanto ao cancelamento do negócio.

A Prisa sustenta que "a Cofina tinha assegurados os compromissos necessários para financiar a transação, quer por parte de instituições de crédito, quer por parte dos seus significativos acionistas, no montante necessário para cobrir o aumento de capital".

A Cofina, dona do Correio da Manhã, Record e revista Sábado, comunicou hoje à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ter desistido de comprar a TVI após falhar a operação de aumento de capital que financiaria o negócio.

A operação de oferta pública que permitiria o aumento de capital da Cofina no montante de 85 milhões de euros (de 25,6 milhões para 110,6 milhões de euros) terminava hoje, mas, face à "deterioração das condições de mercado" e "não tendo sido verificada a condição de subscrição integral do aumento de capital, a oferta ficou sem efeito", pode ler-se no comunicado enviado ao regulador do mercado.

Depois de falhados dois acordos anteriores para a venda da Media Capital - em 2009/2010 à Ongoing e em 2017/2018 à Altice - foi em 21 de setembro de 2019 que a Cofina anunciou ter chegado a acordo com a Prisa para comprar a totalidade das ações que esta detém na Media Capital, valorizando a empresa em 255 milhões de euros (a operação incluía a dívida).

No anúncio preliminar de lançamento da oferta pública de aquisição (OPA), a Cofina fez depender o sucesso da operação de um conjunto de condições prévias, entre as quais a não oposição por parte da Autoridade da Concorrência (AdC), a autorização da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a aprovação, pela assembleia-geral da espanhola Prisa, da transação, bem como a aprovação e execução de um ou mais aumentos de capital social da dona do Correio da Manhã para financiar a compra da Media Capital.

Em dezembro do ano passado, a AdC anunciou a sua não oposição à operação de concentração e a Cofina fez saber ter acordado com a Prisa a redução do preço da compra em 50 milhões de euros face aos 255 milhões de euros comunicados em setembro.

O preço de aquisição passou assim a ser de 123,29 milhões de euros, correspondente a um 'enterprise value' de 205 milhões de euros. Pela transação, a Prisa iria receber 123,9 milhões de euros, menos 27% do que o previsto inicialmente.

Já este ano, em 29 de janeiro, os acionistas da Cofina e da Media Capital deram luz verde ao negócio em duas assembleias gerais: os primeiros aprovaram o aumento de capital até 85 milhões de euros para financiamento da compra, enquanto os acionistas da Prisa aprovaram a venda da Vertix, detentora da maioria da Media Capital, à Cofina.

O agora anunciado falhanço do negócio é a terceira tentativa falhada da Prisa para venda da Media Capital, assunto que nos últimos 10 anos esteve na ordem do dia, com muita polémica envolvida.

As tentativas falhadas de venda da Media Capital

Foi em julho de 2005 que a Prisa se tornou a principal acionista da Media Capital, levando na altura o líder do PSD, Marques Mendes, a acusar os governos português e espanhol de cumplicidade no negócio com a empresa espanhola, lembrando a ligação do grupo ao PSOE, com o executivo da altura a negar qualquer envolvimento na matéria.

Em outubro de 2006, a Prisa viria a lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a totalidade da dona da TVI e passa a controlar a Media Capital.

Entretanto, no final de 2008, o grupo espanhol atravessa um período de crise financeira e propõe-se a avançar com cortes para enfrentar a dívida e a queda de receitas.

As dificuldades financeiras continuam em 2009 e, no âmbito das medidas para enfrentar a situação, a Prisa anuncia em junho desse ano a intenção de vender 30% da Media Capital, levando na altura a PT (operadora entretanto comprada pela Altice) a manifestar o seu interesse.

O negócio acabaria, contudo, por ser inviabilizado pela polémica lançada à volta do assunto, nomeadamente de tentativa política de controlo da TVI, com o então primeiro-ministro José Sócrates a anunciar que se iria opor à compra pela PT para que não haja a mínima suspeita de que esse negócio se destina a alterar a linha editorial da TVI. O Estado tinha uma 'golden share' na PT que lhe permitia vetar a operação.

Com a PT fora da 'corrida', as portas ficam então abertas para a Cofina e a Ongoing.

Na altura, a dona do Correio da Manhã adiantou que pretendia comprar uma posição de controlo na Media Capital e não estava interessada em ficar apenas com os 30% da empresa.

Entretanto, em setembro de 2009, a Prisa anuncia a venda de 35% da Media Capital à Ongoing, empresa que era acionista da Impresa.

Contudo, em janeiro do ano seguinte, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) 'chumba' a operação, colocando como condição à Ongoing a venda da totalidade da participação na SIC.

Em 30 de março de 2010, sem que a Ongoing tenha vendido a sua participação na Impresa, a Concorrência opõe-se ao negócio, contando já com o parecer vinculativo da ERC, que inviabiliza a operação.

Sete anos depois, é a vez de a Altice, que comprou em junho de 2015 a PT Portugal por cerca de sete mil milhões de euros, anunciar que tinha chegado a acordo com a espanhola Prisa para a compra da Media Capital por 440 milhões de euros.

Quase um ano após o anúncio do acordo de compra, e depois de a ERC, na altura liderada por Carlos Magno, não ter chegado a consenso sobre o negócio, apesar de os serviços técnicos da entidade terem dado parecer negativo, a AdC rejeitou os compromissos apresentados pela Altice na operação, por entender que "não protegem os interesses dos consumidores, nem garantem a concorrência no mercado".

Como resultado, a Prisa anunciou em junho a desistência do negócio, com a dona da Meo a lamentar as decisões dos reguladores portugueses.

Goradas as duas tentativas de venda à Ongoing e à Altice, a compra pela Cofina parecia agora estar perto de se concretizar.

Contudo, ficou hoje a saber-se que à terceira não foi de vez.

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