País

Tolentino fez a partir de Camões uma epopeia para este 10 de junho  

Ana Geraldes

Ana Geraldes

Jornalista

O apelo é para um sentido de comunidade, com compaixão, fraternidade, inclusão e justiça social  

Com Camões como inspiração, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça pediu ao país que invista na "dimensão humana", nos "valores essenciais", naquilo que considera ser a comunidade que as "raízes" ensinam. Ele próprio revelou que pensou este discurso como uma "reflexão sobre as raízes".

Convidado por Marcelo Rebelo de Sousa para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de junho - que deveriam realizar-se entre a Madeira e junto de uma comunidade portuguesa na África do Sul - D. José Tolentino Mendonça, madeirense, pensador e poeta, pegou na lírica de Camões e no contributo de Os Lusíadas para começar por dizer que "Camões não nos deu só o poema. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um mestre da arte do desconfinamento." E continuou o raciocínio com a ideia de que desconfinar não é apenas voltar a ocupar o espaço comunitário, há que o "habitar plenamente" e isso passa por "modelá-lo".

Na transformação da sociedade, Tolentino Mendonça pede "que a crise nos encontre unidos", num "pacto comunitário", que também chamou de "aliança geracional" para que ninguém seja esquecido: "Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros".

Em particular, olha com preocupação para os idosos, mais vulneráveis: "temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações" e para os "jovens adultos, abaixo dos 35 anos" que vão passar por "segunda crise económica grave".

Tolentino Mendonça acredita que a esperança está na união e no sentido de comunidade, na visão da sociedade como um todo. Reconhecendo que "o desafio da integração é imenso e lento, requer tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade", faz questão de sublinhar o outro lado da epopeia de Camões, além da glorificação dos feitos nacionais, a capacidade de superação das dificuldades:

"A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens! Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo."