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“Quando negamos a existência do racismo criamos espaço para a impunidade”

Cristina Roldão, socióloga e ativista, e António Nunes, presidente do OSCOT, em entrevista à SIC Notícias.

Na sequência do e-mail com ameaças enviado à SOS Racismo, onde são visadas também três deputadas da Assembleia da República, Cristina Roldão, socióloga e ativista, e António Nunes, presidente do OSCOT analisam o ressurgimento de alguns movimentos extremistas e o combate à discriminação.

Para a ativista, olhar para este assunto como se fosse algo novo é olhar apenas para a “ponta do iceberg”, e sublinha também que a extrema-direita se está a reorganizar de uma forma como não acontecia desde a época de 90.

Para Cristina Roldão faltam políticas públicas de combate às desigualdades étnico-raciais e à discriminação. Alerta ainda que quando se nega a existência do racismo, cria-se espaço para a impunidade. Para contrariar isso, considera ser preciso assumir o debate do combate ao racismo de forma frontal, tal como são discutidas as desigualdades de rendimento, género ou orientação sexual.

Alterações estruturais: o papel da escola

Para além de assumir o debate, fala mesmo na alteração de questões estruturais como a alteração do currículo escolar, “onde não há referências aos afrodescendentes e onde se faz uma leitura benévola do colonialismo português”. Só assim se poderá, de seguida, dar conta das formas mais extremadas de racismo e discriminação, conclui.

O alerta para o dever do Parlamento

Para António Nunes, é necessário cuidado com a representação parlamentar, que pode ser palco de ideias “aconchegadas” pelos grupos de extrema-direita e que lhes pode conceder uma “maior capacidade de intervenção”.

Sobre o papel das autoridades e dos serviços de inteligência portugueses na identificação destes grupos, o presidente do OSCOT explica que Portugal “tem uma boa experiência” na identificação, acompanhamento e investigação criminal destes elementos.

Ainda assim, considera que a falha está no espaço político, que não é capaz de criar um ambiente legislativo e “punitivo” que levem a uma condenação.