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Relatório aponta falhas de manutenção em aeronave que aterrou num campo de golfe em Cascais

Bombeiros Voluntários de Cascais

Presença de água no combustível já tinha sido detetada num voo anterior.

Falhas na manutenção do avião ligeiro que aterrou de emergência, em Cascais, em agosto deste ano, conduziram à contaminação do combustível por presença de água nos tanques, o que originou a falha do motor, concluiu a investigação.

O relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a agência Lusa teve acesso, aponta diversas falhas nos procedimentos de manutenção nas várias fases e oportunidades de deteção e correção da condição do modelo Tampico, que, a 6 de agosto, descolou de Cascais com destino a Coimbra, mas após cinco minutos em voo teve de aterrar de emergência num campo de golfe.

"Pelo histórico recente de problemas de contaminação de combustível da aeronave e que levou à falha de motor, pela condição dos vedantes das tampas dos tanques e, por alegada falta de material para a sua substituição, o prestador de serviços de manutenção, com o acordo do novo proprietário e aceitação do piloto, improvisou um procedimento não autorizado no manual, aplicando fita adesiva sobre os bocais para evitar a entrada de água nos tanques", constataram os investigadores.

Durante a aterragem de emergência, desde o primeiro toque no solo até à imobilização final, a aeronave percorreu cerca de 265 metros e colidiu com duas árvores de grande porte. O piloto e os dois passageiros, também pilotos, saíram praticamente ilesos do acidente, enquanto o Tampico, com capacidade para quatro ocupantes ficou destruído.

Relatório revela falhas que contribuiram para o acidente

Na envolvente da manutenção, o GPIAAF revela falhas "na avaliação da condição dos vedantes das tampas, nos procedimentos de limpeza dos tanques, na deteção da condição do carburador e no retorno ao serviço da aeronave utilizando procedimentos não aprovados".

A investigação aponta também como fator contributivo para o acidente "a não deteção ou reconhecimento pelo piloto da presença de água no combustível durante a inspeção antes de voo".

Dos factos recolhidos e analisadas as condições técnicas do avião, a investigação concluiu que um "período temporal alargado de paragem da aeronave, sujeita a agentes exógenos, criou as condições necessárias para a presença de água sobre os depósitos de combustível da aeronave".

"O incorreto cumprimento dos procedimentos de manutenção, desde a preservação da aeronave por longos períodos de inatividade, a decisão de manter em serviço os vedantes das tampas atendendo à sua condição, o procedimento de remoção e limpeza dos tanques, a falha na inspeção/drenagem da cuba do carburador e por fim a aplicação de fita adesiva sobre os bocais de enchimento dos tanques nas asas", é outra das constatações dos investigadores.

A aeronave foi registada em 14 de março de 2019 pela escola de aviação AWA (Aeronautical Web Academy - Cascais), porém voou poucas horas desde então, não tendo realizado qualquer voo em 2019 e apenas dois voos em 2020, ambos voos de aceitação.

Presença de água no combustível já tinha sido detetada num voo anterior

Num desses voos/ensaios, em 01 de junho de 2020, "a aeronave terá apresentado falhas de operação do motor, tendo como causa identificada, após o respetivo processo de pesquisa de anomalia, a presença de água nos tanques de combustível", diz o relatório.

"Apesar de incoerentes nas datas", os registos de manutenção "mostram que foi realizada a remoção do combustível contaminado, sem, no entanto, especificar o método de limpeza dos tanques".

"As práticas de manutenção nas diversas intervenções realizadas demonstram desvios relevantes à regulamentação ao serem assinados documentos sem o devido cumprimento (...). Atalhos nos trabalhos realizados no sistema de combustível como a drenagem da cuba do carburador e limpeza dos tanques contribuíram para o desfecho do evento e devem ser devidamente analisados pelo prestador de serviços", adverte o GPIAAF.

A investigação aponta também falhas "no seguimento dos procedimentos padronizados na emergência pelo piloto, para os quais terão contribuído os fatores de diversão de atenção promovidos pelos passageiros".

Segundo os dados recolhidos, "os passageiros influenciaram o processo de decisão do piloto na gestão da emergência, com sugestões na escolha do local para aterragem, "colocando pressão adicional na sequência de ações de condução do voo".

A investigação entendeu não ser eficaz efetuar recomendações, mas o GPIAAF faz no relatório diversos alertas à comunidade aeronáutica relativos às causas identificadas, no sentido de não serem repetidas.