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Empresário nega em tribunal do Porto burla com ações e admite recomprá-las

Segundo a acusação, o empresário consumou as burlas ao vender papéis sem qualquer valor como se fossem ações de empresas que controlava e que teriam patenteado um 'chip' injetável para detetar precocemente o cancro.

Um empresário acusado por burlas de 348.000 euros na venda de ações associadas a um suposto 'chip' injetável para detetar o cancro negou esta terça-feira os crimes num tribunal do Porto, afirmando-se disponível para recomprar essas ações pelo mesmo valor.

As declarações do arguido foram prestadas perante o tribunal de São João Novo, num depoimento que se prolongou por toda a manhã.

Segundo a acusação levada a julgamento no Porto, o empresário consumou as burlas ao vender papéis sem qualquer valor como se fossem ações de empresas que controlava e que teriam patenteado um 'chip' injetável para detetar precocemente o cancro.

Perante o tribunal, o arguido confirmou que recebeu dinheiro das pessoas que se declararam burladas, mas rejeitou qualquer prática dolosa. Referindo-se ao caso específico de um investidor que lhe confiou 250 mil euros, declarou: "Foi vendida uma participação numa sociedade que tem existência jurídica e que é minha". Acrescentou que o valor se reportava a 8,33% de uma 'holding' pessoal 'offshore', que controlava a empresa que estava a desenvolver o 'chip'. Esta segunda empresa controlava, por sua vez, uma outra 'holding' que - disse - tem a receber 11 milhões do estado de São Tomé e Príncipe.

Reportando-se ao 'chip', assegurou que tem a patente desde 2013.

"Não é nenhuma falsidade. O projeto continua vivo e a ser desenvolvido em Pamplona", disse.

A Interpol, citada no processo, nunca o confirmou, levando o empresário a fazer esta observação: "Lamento que a Interpol esteja mal informada".

Quando questionado sobre o estado atual do invento que diz ter patenteado, afirmou: "Estamos numa meia fase". Sublinhou que há um plano de negócios associado de milhões de euros que os investidores conheceriam. Mais tarde declarou-se disposto a recomprar as ações pelo mesmo valor.

O arguido, empresário de 62 anos, natural do Porto e com residência em Madrid, está acusado por burla qualificada e por falsificação de documento, num processo em que os lesados reclamam os montantes ainda não devolvidos.

Segundo o Ministério Público (MP), o empresário burlou quatro pessoas, entre as quais dois cirurgiões. Apenas um deles conseguiu atenuar o prejuízo sofrido, reavendo 38.000 dos 60.000 mil euros entregues ao empresário.

Segundo a acusação do processo, consultada pela agência Lusa, o arguido, "usou vários artifícios para levar avante os seus propósitos nomeadamente exibindo documentos que bem sabia não possuírem qualquer validade".

Tais documentos, acrescenta, "consistiam apenas em mais um engodo para ludibriar os ofendidos e retardar a apresentação de resultados que bem sabia inviáveis, pois nenhuma investigação [sobre o suposto 'chip'] estava em desenvolvimento".

Como afiança o Ministério Público (MP), o empresário começava por granjear a amizade das pessoas-alvo, dando sempre de si a imagem de um investidor com grande rasgo e de pessoa "bastante influente". Declarou-se mesmo amigo da empresária Isabel dos Santos, filha do ex-presidente de Angola.

O maior lesado foi o responsável de uma clínica de estética do Porto que, em 2012, transferiu 250 mil euros para a conta do arguido, convicto de que, com esse valor, estava a comprar ações da Ulley Group Suisse, SA, que deteria a patente do "Dar Life", o suposto 'chip' de deteção precoce do cancro.

A Ulley Group Suisse, garante o MP, não tinha existência legal.

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