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"Nunca houve uma reforma nas Forças Armadas completamente pacífica em que todos estavam de acordo"

Entrevista SIC Notícias

O ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, em entrevista à Edição da Noite da SIC Notícias.

As alterações nas Forças Armadas foram apresentadas esta terça-feira no Parlamento. A proposta de alteração da estrutura prevê o reforço dos poderes do Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas e a redefinição das competências dos comandos superiores do Exército, Marinha e Força Aérea.

João Gomes Cravinho abriu o debate no Parlamento dizendo que esta é uma reforma prudente e ponderada. Em entrevista à SIC Notícias explica que houve três reuniões com o Conselho Superior Militar, o local onde o ministro da Defesa se reúne com os quatro chefes militares, houve também uma reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional, o Presidente da República convocou ainda o Conselho de Estado, e o ministro da Defesa reuniu com os grupo parlamentares. "Houve mais diálogo do que aquilo que está estabelecido", diz Gomes Cravinho.

As críticas à reforma vieram de ex-chefes militares e também de dois antigos Presidentes da República, Cavaco Silva e Ramalho Eanes. Gomes Cravinho garante não desvalorizar e diz ter tido a oportunidade de apresentar as ideias no Conselho de Estado.

"A experiência é muitíssimo importante e as opiniões, que resultam das tomadas de posição de antigos chefes, são conhecidas, foram tomadas em conta, não houve concordância, mas não foi ignorando aquilo que eram os pontos de vista dessas pessoas."

O ministro da Defesa diz que "nunca houve uma reforma nas Forças Armadas que fosse completamente pacífica e em que todos estavam de acordo", lembrando a reforma de 1982 que "foi muito mais complicada do que esta".

"Considero que nas instituições, e quanto maior forem as instituições mais isso se nota, as mudanças são sempre difíceis."

Quando questionado sobre o que poderia estar a correr mal para que se impusesse esta mudança, Gomes Cravinho explica que o que "as pessoas não sabem" é que às vezes o trabalho das Forças Armadas corre bem "não por causa da estrutura superior, mas apesar da estrutura superior", acrescentando que houve "muito trabalho" em "superar algumas das dificuldades de ordem jurídica estabelecidas no atual ordenamento".

Para o ministro esta reforma servirá para se olhar para o presente e futuro das Forças Armadas e pensá-las como um conjunto: "Em vez de pensar em três ramos, cada um a fazer o seu caminho separadamente". Gomes Cravinho acrescenta que este pensamento conjunto das Forças Armadas não irá desvalorizar os ramos, porque são "valiosíssimos e têm uma importância fundamental no sistema".

"Passa a haver uma lógica de comando centralizado. Passa a ser possível pensar nas forças armadas como as 'Forças Armadas Portuguesas' e não um conjunto de três entidades que funcionam de forma mais ou menos autónoma."

No que diz respeito às relações com a NATO, o ministro esclarece que não se altera em nada a relação, o que poderá haver é uma maior "facilidade na interação, porque há uma linha de comunicação única através do CEMGFA".

A votação na generalidade da reforma será na próxima quinta-feira e terá à partida os votos do PS, do PSD e do CDS garantidos, o que é "um consenso muito, muito amplo", constata Gomes Cravinho.

"Esta proposta dá resposta a alguns problemas" dos militares, "não dá resposta a outros", diz o ministro. "Isto não é uma varinha mágica que de repente resolve todos os problemas das Forças Armadas."

O ministro da Defesa diz que "naturalmente todas as pastas deste Governo ou de qualquer Governo gostariam de ter mais recursos", no entanto refere que "é importante não esquecer" que Portugal está "no ciclo de maior investimento nas Forças Armadas desde o 25 de Abril".

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