País

Juventude (e não só) por inquietar

Opinião

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Um país que amordaça os seus jovens (a Itália de Mussolini como o Portugal de Salazar) é um país sem futuro; os jovens que se deixam amordaçar condenam-se a si próprios – “quem não sonha é porque não espera mais nada da vida”.

Há exatamente um mês vi “Juventude Inquieta”, uma peça de Joana Craveiro (Teatro do Vestido) inspirada no livro de Augusto Abelaira, “Cidade das Flores”. Fui ler o livro (à atenção dos editores: merecia ser republicado; só encontrei à venda uma versão digital).

A obra, publicada originalmente em 1959, numa edição de autor, descreve as inquietações de um grupo de jovens nos seus vintes na Itália pré II Guerra, mas já há muito dominada por Mussolini.

A Alemanha ameaçava invadir a Polónia e todos os protagonistas do romance se interrogam, cada um à sua maneira, sobre o seu papel nessa sociedade em que só é verdadeiramente livre quem se deixa aprisionar (tanto em sentido fático como literal) pelos seus medos, pelos seus sonhos, pela sua ousadia em questionar o presente e reivindicar o futuro.

A mensagem é evidente: um país que amordaça os seus jovens (a Itália de Mussolini como o Portugal de Salazar) é um país sem futuro; os jovens que se deixam amordaçar condenam-se a si próprios – “quem não sonha é porque não espera mais nada da vida”.

Outros tempos? Outros tempos, claro. Mas as questões de fundo são intemporais e readquirem novas perspetivas à luz da realidade política dos nossos dias ou, melhor dizendo, à luz da apatia política dos nossos dias.

Por isso Joana Craveiro recuperou o texto esquecido de Abelaira e lhe deu este título que junta a um substantivo poderoso (juventude) um adjetivo que se diria redundante (inquieta) mas, como bem sabemos, não é.

A dois meses e meio das legislativas antecipadas, e antes que os partidos comecem a debitar as palavras de sempre sobre o necessário combate à abstenção e a imprescindível reposição da ligação entre eleitores e eleitos, talvez fosse de todos, jovens e já não tão jovens, nos inquietarmos com o rumo que as coisas levam. “Será terrível o dia em que me deite e não sonhe acordada”.