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“A questão para um milhão”: porque é que faltam médicos de família no SNS?

08.02.2022 20:31

Female doctor putting her hand on patient’s shoulder

Porque é que muitos médicos de família fogem do SNS? Quanto tempo demora a formar um médico de família? E podemos mesmo ficar sem 20% dos médicos de família este ano? Seis perguntas e respostas

Se até ao momento, os utentes do Serviço Nacional de Saúde sofriam com a falta de médicos de família, nos próximos anos o problema pode agravar-se. Dados referentes a 2021, indicam que cerca de um milhão de portugueses não tem médico de família, ao mesmo tempo que, este ano, 1.000 médicos atingem a idade da reforma. Nos próximos anos, o número continua a ser alto: 400 médicos podem reformar-se em 2023 e quase 300 em 2024. 

Por outro lado, as universidades portuguesas estão a formar cerca de 500 recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar por ano, um número que não tem sido suficiente para colmatar a falta de profissionais no mercado. Destes 500, uma percentagem significativa migra para o serviço privado ou opta por trabalhar no estrangeiro. 

A resposta à pergunta “Porque faltam médicos de família” não é fácil. “O que nos está a acontecer agora é que até formamos médicos de família em número teoricamente suficiente, mas não estamos a conseguir fixá-los no SNS”, explicou Nuno Jacinto, Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. 

Mas porque é que os recém-formados não querem continuar no SNS? “É a pergunta para um milhão de dólares”, respondeu Paulo Santos, Presidente do Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar da Ordem dos Médicos. 

(Photo by PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP) (Photo by PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP via Getty Images)

As justificações podem ser várias, algumas com mais peso do que outras, explica. A Região de Lisboa e Vale do Tejo é uma das mais afetadas pela falta de médicos de família e o problema pode estar relacionado com outro: o preço das habitações.

“Em Lisboa e Vale do Tejo, fala-se que os ordenados dos médicos não cobrem os alugueres das casas. Os ordenados dos médicos em início de carreira são de facto muito baixos”, afirmou. 

Mas o problema não se reduz à remuneração. Os dois médicos entrevistados pela SIC Notícias consideram que as tarefas exigidas a um médico de família, a falta de tempo para investigação, a falta de recursos físicos e humanos, equipamentos técnicos e tecnológicos, bem como a maneira que os médicos de família “vão sendo tratados ao longo do tempo, sobretudo por parte das chefias mais elevadas” podem fazer com que os profissionais optem por trabalhar fora do Serviço Nacional de Saúde, ou mesmo fora do país. 

Quantos médicos de família recém-formados vão para o SNS?

Anualmente, são formados entre 400 a 500 médicos de família. Neste momento, a taxa de retenção, ou seja, a percentagem dos que ficam no SNS, está na ordem dos 60 a 70%. Isto significa que, dos 400 a 500 médicos recém-formados, apenas 300 a 350 vão para o Serviço Nacional de Saúde. 

No último concurso, dos 400 médicos formados na especialidade, 188 ficaram de fora, avançou Paulo Santos. “Ou seja, 188 colocações ficaram abertas não porque não houvesse médicos, mas porque ninguém quis concorrer a essas vagas”

Porque é que os recém-formados não querem trabalhar no SNS?

Os recém-formados fogem do SNS porque a tabela salarial não é adequada à diferenciação e às competências e porque existe falta de recursos, apontou Nuno Jacinto. 

“Temos unidades mal equipadas, temos falta de profissionais e temos um claríssimo desrespeito pelos médicos de família pelas sucessivas tutelas que fazem com que os colegas mais novos entendam que não é isto que querem para a vida futura”, acrescentou o presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar.

A solução é sair para o sistema complementar, ou seja, os serviços de saúde privados ou até emigrar. “É uma pena, para além do desperdício de recursos”, apontou, por sua vez, o representante da Ordem dos Médicos, Paulo Santos. 

Para além dos problemas nas tabelas salariais e na progressão da carreira, os dois representantes consideram que o conjunto de tarefas e de disponibilidade exigidas a um médico de família, bem como a falta de tempo para dedicar a atividades de investigação são fatores que afastam os jovens da especialidade. 

Quanto tempo demora a formar novos médicos?

São necessários, pelo menos, 11 anos para formar um médico de Medicina Geral e Familiar. “No mínimo, são seis anos no curso de Medicina, um ano de formação geral e quatro anos de formação específica”, explicou Nuno Jacinto.  

Nos primeiros seis anos, a formação é abrangente, mais teórica e toca em todas as áreas da Medicina. No sexto ano, os alunos já têm contacto com a prática e no ano seguinte passam ao internato da formação geral, que serve para perceberem que especialidade vão escolher. Segue-se depois a formação específica em Medicina Geral e Familiar, que dura mais quatro anos. 

Ou seja, um estudante que entrou este ano em Medicina e que, posteriormente, escolha a especialidade de Medicina Geral e Familiar só entrará no mercado de trabalho daqui a 11 anos.

Prescindir dos anos de formação é “inquestionável”, considera Nuno Jacinto, referindo que a especialidade é generalista, mas não é “simplista” uma vez que é complexa e que abrange todas as fases da vida dos utentes. 

“A qualidade é um padrão que temos que exigir enquanto sociedade”, esclareceu Paulo Soares. 

A especialidade de Medicina Geral e Familiar é pouco atrativa? 

A Medicina Geral e Familiar é atrativa e há cada vez mais estudantes que optam pela especialidade “por gosto”, consideram os médicos. A nível académico, há um “esforço enorme” por apresentar uma Medicina Geral e Familiar “moderna”, apontou o representante da Ordem dos Médicos, que é também docente no curso de Medicina da Universidade do Porto. 

“Quando lhes apresentamos uma Medicina Geral e Familiar moderna e chegam aos centros de saúde motivados para fazer um internato e começam a perceber que os centros de saúde não são aquilo que poderiam ou deveriam ser, há uma desmotivação”, explicou Paulo Santos. 

Por sua vez, Nuno Jacinto acredita que os médicos não querem a “Medicina Geral e Familiar que se pratica atualmente no SNS”. Ou seja, gostam da profissão e da especialidade, mas “não gostam da maneira como são tratados, não gostam da carga burocrática que existe, que os deixa insatisfeitos, os desgasta e os revolta”. 

“Não temos dificuldades em arranjar internos, temos dificuldades em manter esses internos quando se tornam especialistas, que é uma coisa curiosa”, apontou o presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar, acrescentando que a formação é “de enorme qualidade”. 

Podemos ficar sem 20% dos médicos de família este ano? Estamos perante uma “desgraça”? 

Em Portugal, existem mais de 5.000 médicos de família e 1.000 podem pedir a reforma em 2022, numa altura em que mais de um milhão de portugueses não têm médico de família. É possível que nem todos peçam a reforma ainda este ano, admite Nuno Jacinto, mas é apenas um adiar da situação. 

A informação foi avançada pelo coordenador do grupo para a reforma dos cuidados de saúde primários, João Rodrigues. Numa entrevista ao Público, admitiu que se todos os médicos em idade de reforma decidirem sair “será uma desgraça completa, um drama”. 

Tanto o Presidente da Associação de Medicina Geral e Familiar como o Presidente do Colégio da Ordem dos Médicos admitem que a situação não é nova, mas havia a esperança que fosse diluída no tempo. Os dois últimos anos de pandemia, a exaustão de alguns profissionais e “alguma desorganização” acabou por “contribuir para o cansaço de colegas que estavam no limite de idade e que ainda se aguentariam mais uns tempos em situações normais”.  

“Termos o potencial de haver mil médicos de família a sair quando apenas formamos 500 por ano e quando retemos apenas 60 a 70% significa que nos arriscamos a, no final de 2022, termos o dobro dos utentes sem médico de família do que temos agora”, explicou, acrescentando que haverá uma sobrecarga de trabalho nos médicos que ficam no sistema. 

No entanto, Nuno Jacinto considera que está “na altura de correr atrás do prejuízo”, uma vez que “muita coisa já não se consegue fazer para evitar que isto aconteça”. 

“Se não dermos um sinal de que estamos preocupados e a resolver esta questão e que queremos que os médicos de família fiquem no SNS, vamos continuar a agravar o problema”, afirmou. 

O que pode fazer o novo Governo?

Ainda este mês, no dia 23, o Presidente da República irá dar posse a um novo Governo que começa um mandato de quatro anos com vários desafios na área da saúde. Os dois médicos esperam que o novo Executivo dê prioridade aos cuidados de saúde primários e que seja capaz de falar com os profissionais no terreno. 

Para Paulo Santos, há uma dificuldade de “abordar localmente os problemas, de perceber quais são as necessidades de cada população”. O responsável da Ordem dos Médicos critica ainda “a estrutura rígida imposta por um mecanismo central” que tem levado a uma tomada de decisões transversal, que não atende os problemas específicos de determinadas localidades. 

“A medida para iniciar é falar com as pessoas, deixar que o que é local se resolva localmente e criar condições centrais para apoiar a autonomia das unidades, não descurando aquilo que é o plano nacional de saúde”, afirmou. 

Já para Nuno Jacinto, os cuidados primários, os centros de saúde e os médicos de família que “resolvem mais de 90% das situações” devem “de uma vez por todas” ser colocados no “centro das preocupações”. 

“Continuamos focados numa visão hospitalocêntrica e temos que mudar este paradigma. Temos que nos focar nos utentes em primeiro lugar e, para nos focarmos nos utentes, temos de nos focar no acesso aos cuidados de saúde primários. Se não tivermos cuidados de saúde primários fortes, vamos ter todo o resto do sistema e do SNS a falhar”, referiu. 

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