País

"Esta não é a primeira dificuldade porque passamos", diz Santos Silva

"Esta não é a primeira dificuldade porque passamos", diz Santos Silva
Horacio Villalobos

O presidente da Assembleia da República diz que não se devem esconder as dificuldades das pessoas, mas também não se deve contribuir para agravá-las.

O presidente do parlamento apelou esta terça-feira para que não se responda ao atual cenário nacional com "discursos catastrofistas", defendendo que não se devem esconder as dificuldades das pessoas, mas também não se deve contribuir para as agravar.

Num discurso na Associação 25 de Abril, em Lisboa, Augusto Santos Silva considerou que a atual situação nacional, marcada pela inflação, deve "ser caracterizada como difícil, e as dificuldades não devem ser escondidas às pessoas". No entanto, o presidente do parlamento defendeu que não se resolve "essa dificuldade com discursos de natureza catastrofista", nem "exagerando essas mesmas dificuldades".

"Temos que ter uma atitude suficientemente equilibrada para perceber que esta não é a primeira dificuldade porque nós passamos. É uma dificuldade grave, certamente, mas não devemos ser nós, com a nossa atitude, com o nosso discurso, com as nossas descrenças, a agravar ainda mais as dificuldades por que passamos", sublinhou.

No entender do presidente da Assembleia da República, Portugal tem uma "vantagem comparativa" relativamente a outros países para lidar com a atual situação, designadamente o facto de, "à estabilidade do Governo e à força do Governo e da maioria, corresponder também estabilidade do lado da oposição".

"Por escolha soberana do povo português, os dois partidos que alternam no Governo obtiveram mais de dois terços dos votos e têm mais de 8/10 dos deputados representados na Assembleia da República", recordou, acrescentando que essa composição permite "essa dialética entre oposição e acordo que é essencial à democracia, designadamente em tempos difíceis".

Santos Silva refere “fraqueza dos parceiros sociais” como uma desvantagem

Santos Silva identificou, contudo, também uma desvantagem na atual situação portuguesa, referindo-se à "fraqueza dos parceiros sociais em Portugal", que confessou provocar-lhe "preocupação". Realçando que "sem lutas sociais, sem lutas sindicais, a progressão dos rendimentos é sempre muito mais difícil", Santos Silva salientou que a tradição sindical portuguesa é "uma tradição forte, que envolve uma linha claramente apostada no diálogo social e uma linha muito enraizada nos trabalhadores, e a dialética entre essas duas linhas tem sido muito importante para organizar as pessoas, para enquadrar as reivindicações e para conseguir chegar a acordos".

"Vejo com especial atenção e com os dedos cruzados o processo atual que espero venha a desembocar num acordo de competitividade, preços e rendimentos, porque isso me parece muito importante para fortalecer a capacidade de o país responder à atual crise", referiu.

“Políticas anticíclicas” para conter aumento dos preços e aumentar rendimentos

No que se refere às respostas para lidar com a situação económica "bastante complexa", o presidente da Assembleia da República preconizou a necessidade de "políticas anticíclicas", procurando conter o aumento dos preços e subir o rendimento das pessoas. Santos Silva sublinhou, no entanto, que Portugal não pode esquecer que tem "a terceira dívida mais elevada da zona euro", que "excede a totalidade do Produto [Interno Bruto] em proporção" e que está "muito vulnerável aos efeitos de qualquer subida da taxa de juro".

O presidente do parlamento considerou assim que é necessária "determinação para seguir políticas anticíclicas", mas também "determinação para ser prudente no esboço e no alcance dessas políticas". "Na minha modesta opinião, o segredo está aí: o segredo está em ter uma resposta de política económica dirigida ao emprego, dirigida aos rendimentos, dirigida aos apoios às empresas, dirigida ao fortalecimento do tecido empresarial, suficientemente calibrada para ir até onde -- e não ficar antes - podemos ir, sem sacrificar a lógica das chamadas 'contas certas'", referiu.

Últimas Notícias
Mais Vistos