Sem provas, o caso não chega a tribunal. As denúncias de personalidades conhecidas podem ajudar na partilha de informação e na quebra do medo da humilhação pública.

Estamos a enfrentar um longo e complexo novelo cujo desfecho ainda não conhecemos. A avaliação do psicólogo Mauro Paulino, autor de um artigo de opinião esta semana sobre o tema do assédio sexual em Portugal, junta-se à leitura que o jornalista Bernardo Mendonça faz do número de denúncias que tem vindo a aumentar: já não falamos de um epifenómeno, mas de algo que está em crescendo.

O facto de terem surgido revelações por parte de figuras públicas dá força a quem se sente ou sentiu vítima, acrescenta Mauro Paulino, para quem "isso pode ajudar outras pessoas a sentirem-se empoderadas para partilhar o que já viveram".

"O tema é delicado" sublinha Bernardo Mendonça, o jornalista que tem falado com algumas das personalidades que vieram a público dar o seu testemunho: "é preciso provas e isso não é fácil". Carmo Sousa Machado, advogada e membro do Conselho Geral da Ordem dos Advogados, sublinha esse facto determinante. A ausência de prova faz com que o caso não chegue sequer a tribunal, até porque o prazo para que a queixa possa produzir efeitos é muito curto.

Mauro Paulino interroga-se sobre a formação dos agentes da Justiça perante a complexidade do tema. Sousa Machado não tem dúvidas de que existem meios e preparação mas alerta para a necessidade de a vítima estar munida de vários elementos de prova. Nessa perspetiva, do lado do especialista recorda-se o papel dos psicólogos, que, com as suas perícias e avaliação de sintomas, podem contribuir com úteis elementos.

De acordo com as informações recolhidas pelo jornalista Bernardo Mendonça, as vítimas começam finalmente a organizar-se e a falar entre si, ultrapassando uma situação de medo pela humilhação pública que o tema ainda suscita. Mauro Paulino lembra que "o assédio acontece onde há poder". Para o psicólogo, muitas vezes "avalia-se o ser viril pelo número de pessoas que se conseguem 'consumir', como se a mulher fosse um objeto sexual".

Um cenário, acrescenta Carmo Sousa Machado, que só se altera com a mudança de mentalidades, o que implica alterações ao nível da educação e da formação das crianças. Um investimento fundamental porque, como refere Mauro Paulino, "a violência faz parte da sociedade".

O Ao Vivo da Redação do Expresso e da SIC sobre o assédio sexual foi moderado pela jornalista Paula Santos.