Entregues à sorte

A história de Rosalina

Durante 50 anos a base das Lajes foi o cais de embarque de muitas crianças açorianas dadas pelos pais biológicos a casais norte-americanos colocados na ilha Terceira. Nascidos em famílias pobres e/ou numerosas, sem meios para sustentar mais uma boca, mais um corpo para vestir e calçar, os filhos mais novos eram geralmente os sacrificados.

Entre 1946 e 1974 foram dadas 97 crianças, segundo as contas do único estudo publicado sobre o assunto, materializado no livro “A Infância Abandonada” . Das dezenas, o número chegará provavelmente às centenas, assim que historiadores consagrarem horas de estudo ao circuito de entrega de crianças, montado durante meio século e que se estendeu até aos anos 90.

O que foi abafado durante décadas por famílias e vizinhos, o que foi desvalorizado pelas autoridades locais e centrais tem vindo à tona no último ano com sucessivos relatos de mães que deram os seus filhos e com os reencontros de famílias que têm tido lugar no aeroporto das Lajes, graças aos apelos que fazem nas redes sociais para encontrar a família de sangue.

A Grande Reportagem fez o caminho inverso do êxodo dessas crianças levadas do arquipélago, algumas ainda recém-nascidas, outras já adolescentes.

Em quatro estados dos EUA, uma equipa da SIC foi ao encontro de algumas dessas crianças, hoje adultos, e dos pais americanos que as adotaram.

Dadas no pressuposto de virem a ter um futuro melhor do que aquele que a família biológica lhes poderia dar nas ilhas, que percurso de vida têm elas para contar e que motivações tiveram os norte-americanos para as adotarem?

A Grande Reportagem apresenta em cinco episódios a história de Rosalina, dos irmãos Marco Paulo e Ana da Ponte, de João Pedro, Sandra Cristina, Maria de Fátima e da irmã Maria Lúcia. Os que foram Entregues à Sorte.

A História de Rosalina

Rosalina dos Santos Brasil da Costa nunca quis ser adotada. Sentia-se feliz no Lar de Stª Maria Goretti, nos arredores de Angra do Heroísmo, na Terceira, onde foi colocada aos cinco anos com Carlos, o irmão mais novo de três anos. Em 1980, quando a mãe, Maria Amorim Brasil, morreu os mais velhos ficaram com os avós e os dois mais novos foram institucionalizados.

Uma saída comum para os últimos filhos de agregados numerosos e pobres, para os filhos ilegítimos ou indesejados. A morte da mãe, aos 36 anos, deixou ainda mais desamparadas as crianças que, desde cedo, conviviam com o alcoolismo do pai e que a viuvez veio acentuar.

Rosalina recorda dois dos momentos mais aterradores da infância; uma noite em que ela e os irmãos tiveram de procurar refúgio no mato e num armário da casa de uns vizinhos para não serem vítimas do mau vinho do pai.

Odete perdeu o rasto à irmã

Os irmãos mais velhos ainda têm memória da mãe mas Rosalina recorda apenas a disciplina das freiras, as brincadeiras no jardim e a companhia das crianças que, como ela, apenas tinham como lar a instituição de caridade inaugurada nos anos 50.

Aos fins de semana, os dois irmãos eram visitados pela irmã mais velha. Odete Pereira foi criada pelos avós e tinha 16 anos quando descobriu que Rosalina e Carlos haviam deixado o Lar de Stª Maria Goretti. Foi numa dessas visitas que soube, pelas freiras, que os irmãos passaram a viver a mais de quatro mil quilómetros, nos Estados Unidos da América, com novos pais. Odete ouviu ainda das religiosas que os laços estavam cortados porque desconheciam o paradeiro da família na América.

Os postais que Rosalina guardou desses dias mostram que as freiras mentiam: na correspondência trocada entre a Terceira e os EUA, uma das religiosas recomendava aos irmãos bondade “para essa boa família”.

O reencontro

Em janeiro deste ano Rosalina regressou, pela primeira vez, à ilha de onde saiu há 33 anos. No Aeroporto das Lajes, na Terceira, a irmã mais velha Odete aguardava ansiosa o reecontro com a irmã, a quem perdeu o rasto em 1986. Separadas na infância, juntaram-se quase avós.

A SIC acompanhou esse momento, só possível porque na Praia da Vitória, na Terceira, há um polícia que nos últimos 10 anos adotou como missão juntar famílias separadas pelos norte-americanos. Paulo Ormonde criou as páginas Adopted from Terceira Azores e Adopted from Portugal, um mural de apelos no Facebook onde irmãos, tios e primos procuram os que foram Entregues à Sorte.

Desde então, e com a ajuda de outros sítios norte-americanos na Internet onde faz as buscas, diz que já reuniu centenas de pessoas.