Futuro Hoje

A minha prenda

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Por mero acaso ofereci a mim próprio uma prenda que tem tudo, e nada, que ver com tecnologia, foi barato e deu-me um enorme prazer.

É uma vergonha mas, tendo sabido do lançamento, estava há uns meses para comprar o Watchers, o último e novíssimo álbum de banda desenhada do Luís Louro. Eu acompanhei o heroísmo do Luís quando conseguiu ser um autor de banda desenhada a sério com o Jim del Monaco que fazia com o ToZé Simões, não vou aqui contar a história do Luís.

Fomo-nos encontrando ao longo das últimas décadas mais por razões profissionais, simpatizo tanto que penso nele como amigo, mas acho que nunca tomei com ele sequer um café, sem ser por razões profissionais, está o registo de interesses feito. Essas reuniões foram quando eu fazia as reportagens sobre banda desenhada para o Jornal das 9 da RTP e, já no Futuro Hoje da SIC, por causa da fotografia.

O Luís é um excelente fotógrafo de vida selvagem, de natureza, e fazia muita fotografia de “stock”, imagens manipuladas para ilustrar conceitos, isto serviu também para falar do comércio de imagens digitais. Pois para se ser um fotógrafo, um ilustrador e um autor/desenhador de BD têm que se ter um ponto comum, uma enorme capacidade de observação.

O Luís tem isso, além de uma capacidade de comunicação e uma simpatia que conquistam qualquer um. No desenho como na fotografia usa as ferramentas digitais com mestria, são ferramentas, não fazem parte da obra.

Disse isto tudo para explicar porque fico sempre a achar que devia ir aos lançamentos dele, e não vou. Ele claro que nem dá por isso, mas quando entrei na Bertrand e dei com o Watchers à minha frente nem olhei para o preço (custa para aí uns 14 €) .

Watchers é uma deliciosa banda desenhada, tem autocarros da Carris, mas voam, tem ursos polares mas em miniatura para levar a passear na calçada portuguesa, tem porrada de macho latino, tem telemóveis e drones e canais nas redes sociais e respira Lisboa por todo o lado. Não é para crianças.

É uma mordaz e divertida crítica aos nossos tempos e à forma como nos relacionamos com a tecnologia, com a natureza, com os outros e com os nossos egos. Nem me vou pôr com comparações bacocas com outros países e essas coisas.

O Luís Louro é um autor maior, e foi um enorme prazer ler este livro, é um prazer redobrado poder dizer isto aqui.

Um abraço!

Desculpa lá não ter ido ao lançamento, e obrigado pela prenda de Natal que não sabias que me tinhas dado.

P.S. Já depois de tudo isto escrito descubro que há dois livros. Um Watchers com o título a vermelho e outro com as letras a branco na capa. É pena que a editora não explique isto numa faixa, ou que nas livrarias o facto não seja óbvio para o comprador casual, como foi o meu caso. Dizem-me que têm finais diferentes. Vou ter que comprar o segundo, Natal a dobrar.

  • Quando a doença mental não deixa ter uma atividade profissional
    0:51