Lourenço Medeiros

Futuro Hoje

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Futuro Hoje

Quero lá saber do teu telemóvel

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Desculpem o desabafo mas é mesmo o que dá vontade de dizer. Claro que é perfeitamente legítimo que cada um de nós se preocupe com o futuro, a médio prazo, da máquina que acabou de comprar com o suor do seu trabalho, mas é por vezes incomodativo que só me perguntem por isso

A frase que usei no título em tom de provocação, se não está, devia estar na mente de cada empregado da loja da Huawei ali no Colombo, cada vez que um português lá vai perguntar o que vai acontecer.

Imagino que tenham a resposta oficial dos updates de segurança garantidos bem estudada e cheia de sorrisos. O que não sabem responder de certeza é onde vão estar daqui a uns meses se esta história continua. Facto é que clientes, operadores, lojas, distribuidores em vários países, já começaram em alguns casos a cancelar encomendas de aparelhos, e mais, ainda estarão a rever qualquer ideia de encomendar futuros modelos se a a crise não se resolver entretanto.

Por esta altura, se está a ler isto já saberá o essencial: a administração americana passou das palavras aos actos, com acusações de potencial espionagem, colocou a Huawei numa lista negra que na prática impede as empresas americanas de fornecer tecnologia, programas, hardware e sobretudo os chips de que é grande cliente.

A coisa ficou mais notória quando a Google tornou público que iria mesmo deixar de dar suporte à Huawei, daí a preocupação de quem comprou os telemóveis com sistema Android. Na prática não tem efeitos imediatos, mas vai notar-se quando sair a próxima versão. Vão ficar sem atualizações, sem novos mapas, YouTube, etc. Dois dias depois as consequências já eram graves, com uma gigantesca queda na bolsa — foi criada uma moratória de 90 dias à ordem executiva de emergência que criou esta situação. Parece contraditório? É mesmo.

Os fornecedores, que ficam agora proibidos de vender chips e programas à Huawei, estão a fazer contas à vida. Segundo a BBC, a empresa chinesa comprou material essencial a 33 empresas americanas. Para uma dessas empresas, 44% do negócio de exportação é para a Huawei. Há fornecedores de mais de uma série de países. Coreia do Sul, por exemplo, que afunda se a Huawei se for abaixo. Comercialmente ninguém ganha com esta guerra. Depois há toda a máquina montada internacionalmente para a expansão, escritórios com pessoas contratadas localmente em dezenas de países, lojas em outros tantos, até as feiras europeias irão sofrer rudes golpes se a empresa tiver que desinvestir.

Então se o Ocidente está ou vai sofrer tanto ou mais que a empresa chinesa, o que é que Trump quer com isto? O pretexto da espionagem é a parte mais demagógica da conversa, embora tenha um fundo que pode ser verdadeiro. Não estou a dizer que a Huawei faz espionagem, mas o governo chinês faz de certeza, é a natureza das coisas, tal como os Estados Unidos fazem. E o governo chinês, se assim entender, vai tentar usar a Huawei, assim como o governo dos EUA, quando pode, usa as empresas americanas, mesmo entre os países aliados.

A questão de fundo é mesmo a ameaça que a China supostamente representa nesta história. Há aqui um conceito de ameaça que parece ser deliberadamente mal traduzido, entre países e entre quem trata da segurança dos países e os políticos desses países. Num qualquer site dos serviços de “intelligence” americano, é óbvio e notório que uma vantagem comercial significativa é considerada uma ameaça ao país, que deve ser tratada como tal e que, como tal, permite ações de espionagem e até de guerra se for o caso. Isto sempre foi visto assim, já deu origem a muitas guerras mas na linguagem da política sobretudo do lado de cá do Atlântico não é admissível.

Ora o que Trump viu foi o mundo todo prestes a comprar redes 5G à Huawei. Tecnologia chinesa que o governo chinês, mais facilmente do que qualquer outro, poderia usar em seu proveito, e o domínio comercial quase absoluto de uma boa parte das redes de telecomunicações do futuro.

Se isto não é uma ameaça relevante àquela que ainda se considera a maior potência do mundo, guardiã do planeta e dos seus valores, não sei o que é. De certa forma tem razão. Só que os chineses não o podem fazer sozinhos ainda, como se vê. Ainda não têm a indústria necessária para serem independentes, não têm os chips necessários para os telemóveis nem para boa parte dos aparelhos que irão potenciar as redes 5G.

Têm que os comprar aos americanos. Trump, como bem disse o New York Times, expõe com esta crise o calcanhar de Aquiles da indústria chinesa. O mais certo é fazerem agora um acordo que permita salvar as empresas americanas que se iriam afundar para salvar a cara de Trump, ao mesmo tempo que trabalham afincadamente em conseguir a independência necessária para que os americanos não possam voltar a usar esta arma. Então será tarde demais Sr. Presidente.