Lourenço Medeiros

Futuro Hoje

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Futuro Hoje

FaceApp e o negócio do medo

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Lourenço Medeiros escreve sobre um senhor na Rússia que não podia estar mais contente por dizerem que a aplicação dele é perigosa. Há algum tempo que não se falava tanto de uma aplicação e, destemidos, os proprietários de telemóveis descarregaram quase 100 mil vezes o pequeno programa

Pode agradecer a uma onda de medo injustificado. Declarações de políticos americanos a pedirem investigações, celebridades a colocarem fotografias do que pode vir a ser a sua imagem daqui a uns anos, medo e curiosidade alimentaram a onda. O medo compreende-se, a empresa é russa e usa fotografias da nossa cara.

Estão reunidos os ingredientes para uma boa teoria da conspiração. Na minha explicação no Jornal da Noite da SIC, defendi que o modelo de negócio é absolutamente transparente. A julgar pelo que afirmam, só pedem os dados necessários a esse negócio.

Há algumas ressalvas jurídicas habituais nos termos de uso que parecem abusivas, mas são prática corrente e têm a sua razão de ser. Quando, por exemplo, reservam o direito de guardar as imagens para sempre, não é porque o tencionem fazer, mas porque — se o utilizador pedir para as apagarem — não podem tecnicamente garantir que as mesmas fotografias não voltam a surgir algures na web. A empresa afirmou mais tarde que, por regra, só as guarda 48 horas.

De resto, pedem os dados e as autorizações necessárias para poderem fazer três coisas: tratar as fotografias a pedido do utilizador e só aquelas que o utilizador pedir. Já depois da emissão, o New York Times e a Electronic Frontier Foundation provaram que, nos casos estudados, os telemóveis só enviavam os dados das fotos que o utilizador ativamente queria transformar.

Tratar os dados habituais para enviarem publicidade dirigida ao utilizador da versão gratuita da app, e isto é o mesmo que fazem o Google, o Facebook e tantos outros. Por último, gerir as subscrições caso o utilizador opte pela versão paga.

Confesso que não sei se esta é uma funcionalidade nova. Há uma lista de celebridades que podemos usar para manipular as imagens e podemos procurar qualquer nome na web, desconfio que parte do novo sucesso está aqui. É uma suposição, não uma insinuação

Confesso que não sei se esta é uma funcionalidade nova. Há uma lista de celebridades que podemos usar para manipular as imagens e podemos procurar qualquer nome na web, desconfio que parte do novo sucesso está aqui. É uma suposição, não uma insinuação

Há, e neste caso é especialmente notório, algum aproveitamento dos receios dos utilizadores, mas com a FaceApp está a funcionar a máxima de que mais vale que falem mal ...é a melhor publicidade que podiam ter. A aplicação começou em janeiro de 2017 e está agora a bater todos os recordes.

Antes de acabar este texto escrevi um outro muito zangado, demasiado zangado para ser útil. Era uma forma demasiado violenta de confessar a minha enorme frustração com o aproveitamento que este caso tem tido na imprensa.

Há demasiados artigos a falar dos “perigos” que, lidos com atenção, não referem perigos nenhuns. Há outros tantos que se limitam a constatar que os perigos são os de sempre, vá lá saber-se quais. Há demasiadas insinuações. Insinuar não deveria estar neste dicionário e só serve para esconder o desconhecimento.

Há, mais uma vez, um aproveitamento dos nossos pequenos medos individuais, o medo de que nos espreitem o telemóvel, o medo de que nos roubem as passwords. Um medo aproveitado por alguns jornalistas e por supostos especialistas que nestes dias se multiplicam em entrevistas com cliques garantidos. Perde-se em pedagogia, quanto mais não seja porque tantas vezes gritamos fogo que, quando houver um incêndio, ninguém nos liga.

Perde-se em discussão séria e quem ganha, de certeza, é a empresa da FaceApp.

Só por piada e para confirmar que estão a aproveitar a onda, a FaceApp continua a lançar filtros novos, mesmo depois deste texto escrito. Este chama-se Cool Old.

  • Reunião entre Governo e Antram decorre no Ministério
    0:17
  • Os tsunamis que arrasaram a Ásia em 2004 e 2011
    25:20