Futuro Hoje

Huawei FreeBuds 3

Como em todos os auriculares sem fios o design é polémico, há quem os prefira aos das concorrência, há quem diga o contrário.

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

A opinião do editor de novas tecnologias da SIC, Lourenço Medeiros, em mais uma crónica "Futuro Extra".

Assisti à primeira apresentação pública dos FreeBuds pela mão de Richard Yu CEO da Huawei na IFA de Berlim no início de Setembro. Disse imediatamente que tinha que experimentar “aquilo”. O que é que tinha de especial? Pela primeira vez, que eu saiba, alguém se atrevia a apresentar auriculares sem fios e de arquitectura “aberta” com cancelamento de ruído. Nem a marca tenta disfarçar, são mais do que inspirados nos AirPods originais da Apple. Estes auscultadores ficam como que suspensos na orelha, não entram no ouvido, não criam um isolamento físico. Ficam muito mais soltos, para uns é muito mais confortável o que é o meu caso, para outros cria uma sensação de insegurança por vezes justificada. Os auscultadores caem pouco mas caem mais do que se ficassem presos. Entra ar por todos os lados, não há o tal selo, é difícil, senão impossível, a ideia de cancelamento de ruído.

Os primeiros auscultadores que usei para cancelamento de ruído num avião eram apenas e só uns auscultadores que criavam um excelente selo, e faziam bem o trabalho de isolar, de certa forma, o barulho do avião. Mais nada. Os auscultadores modernos com cancelamento de ruído criam ondas que contrariam o barulho ambiente. No início da tecnologia faziam isto muito mal, agora estão francamente eficientes. Escrevi aqui vários textos, sobretudo sobre as fantásticas experiências que tive com os últimos modelos da Sony. São modelos, que de uma forma ou outra, têm a ajuda de barreiras físicas ao ruído. Estes FreeBuds 3 prometiam outra coisa, com a ajuda de um novo chip A1 capaz de fazer cancelamento de ruído adaptativo, algo que só se vê nos topos de gama, muito mais caros.

Tenho tido finalmente a oportunidade de experimentar os FreeBud mas fiz questão de não escrever nada até chegar à prova de fogo que é a viagem de avião. É por isso que começo a escrever este texto num quarto de hotel em Paris e agora que estou a olhar para as horas, só vou conseguir acabar já no voo de regresso, provavelmente com os auscultadores. E sejamos honestos, Richard Yu avisou logo que os auscultadores seriam capazes de reduzir 15Db ao ruído ambiente, menos do que esperaríamos noutros casos, e que não seriam muito eficazes por exemplo com sons que estão sempre a mudar como as vozes. É isso mesmo. Aqui no quarto de hotel estão a fazer um bom trabalho a reduzir o barulho do ar condicionado que é bastante chato, mas é constante e portanto relativamente fácil de eliminar. Na redacção, onde testei muitas vezes, eram quase inúteis. Os jornalistas, que além de barulhentos tendem a esquecer televisões ligadas quando já não precisam delas, são difíceis de filtrar por mais tecnologia que se use. Os Sony topo de gama safam-se, mas não há milagres. Finalmente o avião, confesso que fiquei surpreendido, o resultado até é melhor do que eu poderia esperar, mas não é bom, não vale a pena usar este tipo de auscultadores a acreditar que se vai conseguir um voo mais descansado. O som não fica brilhante, neste ambiente parece que estou a ouvir uma daquelas pequenas colunas portáteis de má qualidade. Sejamos justos não são feitos para isto. Para conseguir o efeito de bolh,a que nos faz quase esquecer que temos motores de avião lá fora, é mesmo preciso gastar muito mais dinheiro. Se comprar para o avião, é deitar dinheiro fora. Em ambientes mais calmos o som parece francamente melhor, não sendo propriamente genial. Devíamos falar mais em auriculares de redução de ruído e não de cancelamento. Mas medindo bem as palavras do CEO da Huawei talvez tenha sido isso que anunciou.

Idealmente, estes auscultadores deveriam ser testados com a última versão do interface da Huawei para telemóveis, o EMUI 10 que não está disponível no P30 Pro que estou a usar. Mesmo usando software da marca fica muito limitado, o que é ainda mais verdade usando qualquer outro telefone. Usando então a versão que tenho disponível, só temos um comando em cada auscultador, podemos escolher da lista claro, mas só podemos usar dois toques de um lado e dois toques do outro, para decidir qual a função que lhe damos. Se escolhemos ter pausa/iniciar já não conseguimos mudar de faixa no mesmo auscultador, é muito limitado. Mais grave ainda, tirar o auscultador da orelha não faz pausa na música. Seria o mínimo para ter acrescentado mais um comando. Mudar o volume só no telefone, mas enfim, isso até é normal. Por outro lado, são muito úteis para usar com o Assistente da Google que finalmente funciona em português, com auscultadores até já consegue ler as mensagens que nos chegam assim ao ouvido, sem pegarmos no telefone. É uma característica de muitos outros modelos, não específica destes.

Com auriculares verdadeiramente sem fios e com chips integrados deveríamos ter muito mais controlo tátil

Com auriculares verdadeiramente sem fios e com chips integrados deveríamos ter muito mais controlo tátil

Já houve algumas actualizações desde que estou a usar os FreeBuds e a última promete resolver uma das queixas que tinha na lista para escrever. De vez em quando há mesmo falhas no som, com um dos modelos de telefone recomendados pela marca para teste, isto não deveria ser admissível. São falhas de fracções de segundo mas estão lá, mesmo em supostas condições ideais de transmissão. Tanto não há desculpa, que a actualização que fiz antes de escrever este texto promete resolver um problema que a Huawei dizia à partida que não existiria com estes auriculares.

Para o dia a dia servem perfeitamente, mas para este preço já se pede um pouco mais

Para o dia a dia servem perfeitamente, mas para este preço já se pede um pouco mais

Em jeito de resumo, eu diria que para a estreia mundial de uma característica que mais ninguém tem, a Huawei conseguiu um relativo bom trabalho de redução de ruído em arquitectura aberta, mas que este tipo de design, como é óbvio não é o indicado para esta função. É um interessante exercício de engenharia, mas não mais que isso. Aliás, quando a Apple poucos dias depois anunciou a versão dos seus AirPods com cancelamento de ruído, lá está, acrescentou o selo, mas com uma variante que corta o efeito de desconforto físico e outra que corta, e muito, na carteira do consumidor.

Os FreeBuds 3 existem em branco e em preto e custam 179€.