Futuro Hoje

O meu Marte é verde

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

A ideia era simples, recriar a paisagem de Marte e o Rover Perseverance, com os seus principais instrumentos de pesquisa, aqui nos estúdios de informação da SIC/SIC Notícias. A concretização era bem complexa, tínhamos todos muito para aprender mas dispunhamos da vontade e das ferramentas.

No dia em que o rover Perseverance partiu na sua longa viagem para Marte tive o prazer de ver no ar um trabalho que pensámos ao longo de vários meses. Foi tudo planeado com preparação suficiente para que nem as contingências da pandemia, que afeta todos os setores da informação da SIC, o impedissem.

O Perseverance em Marte

Desde um dos dias em que visitei as obras das novas instalações da SIC e vi um estúdio com três paredes e o chão completamente verdes que sonhava com uma coisa assim.

Qualquer pessoa mais familiarizada com TV entende o que quero dizer com um estúdio “todo verde”. É um estúdio onde tudo pode ser feito virtualmente. Aquelas paredes de verde real só lá estão para que os computadores as possam substituir por cenários virtuais à medida, podem ser paisagens marcianas realistas ou qualquer fantasia que se possa desenhar.

A tecnologia de que a SIC dispõe faz com que possamos mover câmaras reais no estúdio e esses movimentos sejam reproduzidos nos cenários virtuais. Usamos também tecnologia criada para a indústria dos jogos, para a criação de cenários e objetos virtuais tridimensionais que podemos usar neste estúdio e combinar com a imagem de pessoas ou objectos reais.

Foi assim que, depois de Tintin ter ido à Lua antes de tempo, fui eu a Marte, antes de tempo…

Dois dias com ensaios, um dia de filmagens só para acertar os meus movimentos com os da grua e dos objetos virtuais. Os meus olhos tinham que acompanhar os movimentos do robot e das suas ferramentas e eu só tinha paredes verdes e câmaras, e pessoas claro, em volta.

Era também preciso passar nos sítios certos para que os meus pés parecessem passar por detrás de uma pedra que não existe e não se arriscam a ser “pisados” por uma roda virtual do robot. Qualquer erro destrói irremediavelmente a ilusão, mas não é fácil atuar no vazio apenas com referências mentais de um cenário que não está lá.

Alterei várias vezes o texto para que tudo pudesse funcionar melhor. Este é mesmo um trabalho de encaixar muitas peças para terminar em 4,5 minutos de explicações que se pretendem simples, para serem acessíveis a todos sem maçar ninguém.

Só para dar uma pequena ideia, apresentei a ideia à Marta Reis que deu a partida e à Patrícia Moreira que foi na prática quem coordenou todos os meios que usámos. O Tomé Alves e o Gonçalo Calheiros com base na informação e modelos disponíveis recriaram em Unreal a paisagem, o Perseverance e o Ingenuity o pequeno helicóptero que deverá voar em Marte.

Um trabalho que passa por coisas como criar sombras onde eu estive depois das filmagens, muita minúcia e muito cuidado. O João Carlos Ribeiro deu som a tudo isto. É a sonoplastia que em boa parte consegue insuflar vida nestes objectos e cenários e foi ao detalhe de criar “travagens” em sons mecânicos, coisas que eu nem teria percebido que lá estava, feitas por ele se não me tivesse mostrado mas a verdade é que fazem diferença.

O Pedro Garcia, na grua, fez a maior parte da recolha de imagens no estúdio, com a equipa da régie coordenada pelo realizador José Ribeiro da Silva. Entre testes e gravações revezou-se a equipa do Bruno Godinho da iluminação a garantir que as condições eram as adequadas para a integração da imagem real com a virtual. E ainda deram uma grande ajuda no meu posicionamento, a marcar os sítios onde tinha que estar ou os ângulos em que tinha que me mover. Isto para não falar dos muitos grafismo que usámos, fornecidos para este fim pela NASA e pela ESA.

A Ana Rita Sena com o seu entusiasmo contagiante pegou nisto tudo, editou na prática várias vezes até chegar aos toques finais para criar o que viram na TV e podem ainda ver aqui.

Se tudo correr bem, todo este trabalho vai poder ser aproveitado pelo menos quando o Perseverance pousar em Marte e depois à medida que nos envia resultados. Foi muito trabalho também aqui na SIC mas podemos aperfeiçoar ainda mais o que fizemos e usar em outras notícias e explicações durante uns dois a três anos.

Se chegou aqui e voltar a ver este cenário marciano na SIC, já tem uma pequena ideia do que implica.

Para mim ficou um feliz momento, um privilégio na carreira de um jornalista que pode ir a Marte graças à tecnologia e ao trabalho de toda esta equipa, mesmo que no caso o meu Marte seja… verde.

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