Futuro Hoje

“Precisamos de mais astronautas para termos paz”

25.03.2022 17:44

Luca Parmitano, astronauta da ESA a trabalhar na Estação Espacial Internacional em 2013 (NASA)

Opinião de Lourenço Medeiros.

É simples, o espaço, tantas vezes referido como cenário de futuras guerras, é, na Terra, um dos maiores e melhores exemplos de cooperação internacional. Neste momento, e porque estamos em guerra, muitos dos programas em curso estão em perigo. Um dos exemplos é o adiamento, sem data, do projeto ExoMars da Agência Espacial Europeia (ESA). Este programa prevê a colocação em Marte de um veículo europeu de exploração. Não vou aqui fazer toda a história de um programa já de si atribulado mas, neste momento, o lançamento previsto para 2022 dependia, em muito, da colaboração e empenho da Rússia que, face ao natural apoio da ESA às sanções decretadas, decidiu abandonar o projeto.

A Agência é um excelente exemplo de como a cooperação internacional leva à concretização de metas que seriam impossíveis para um só país. Outro, é o funcionamento da Estação Espacial Internacional. 

Portugal integra a ESA e é porque isso acontece que muitas empresas já desenvolvem tecnologia para o espaço e têm os seus negócios baseados nos projetos da agência. Não sei ainda qual o impacto ao certo, mas há pelo menos quatro empresas nacionais envolvidas no ExoMars. 

Voltando ao início e à ideia de que a tecnologia espacial é e será usada para a guerra. Isto é verdade, mas é também verdade que, graças à exploração do espaço, aos satélites de observação e às redes de comunicações, o nosso planeta é mais transparente. Até a observação da correta implementação dos tratados de erradicação ou controle de armas depende da existência de satélites.

Estão abertas neste momento as inscrições para um programa da Portugal Space, Agência Espacial Portuguesa em que jovens, dos 14 aos 18 anos, podem ser “astronautas por um dia”. Está neste link.  Entre outras atividades terão até a oportunidade de participar num dos famosos voos parabólicos em que, dentro de um avião, é possível experimentar a ausência de gravidade. É um tipo de experiência marcante, que pode mudar vidas. É com programas assim que se despertam potenciais astronautas, cientistas, gestores, mecânicos, e sobretudo cidadãos da Europa e do Mundo. É com programas assim, que se aproximam um pouco mais da visão que os astronautas têm da Terra, um planeta cheio de problemas, mas sem fronteiras visíveis, lá de cima. 

Grande parte da importância destes programas passa pelo convívio com outras pessoas, outras línguas, outras culturas. Sempre disse, o Erasmus é o programa mais importante que a Europa criou até hoje. Estes programas cumprem de certa forma também os desígnios de internacionalização, de abertura de mentalidades,  de incentivo às gerações que nos seguem. 

Infelizmente Portugal tem o que me parece serem ainda poucos candidatos a astronautas. 10 homens e 3 mulheres passaram à segunda fase de um concurso da ESA a decorrer, ou seja cerca de 1% dos 1361 candidatos que estão na corrida aos empregos de astronauta europeu.  Estes lugares são apenas para 6 astronautas de carreira e 20 de reserva, que podem ser chamados para vários programas. No entanto, Engenharia Aeroespacial é o curso mais cobiçado e cotado da Academia portuguesa. Ou seja, estamos longe do que queremos, mas estamos no bom caminho. 

É com programas assim, os grandes, da Agência Espacial, ou os mais pequenos, que se despertam jovens para futuros possíveis que se promove o entendimento entre os povos, é por isso que precisamos de muito mais astronautas, no espaço e em todos os campos, que são muitos, em que é necessária a cooperação internacional.

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