Investigação SIC

Comando desperdiçou período noturno para dominar fogo de Monchique 

Reportagem na íntegra

Se fosse aproveitado o primeiro período noturno, em vez de 26 mil hectares teriam ardido 3 mil, revela Observatório.

O comando do incêndio de Monchique, em agosto do ano passado, não aproveitou as oportunidades dadas pela meteorologia para dominar o fogo durante a noite. É a principal conclusão preliminar do Observatório Técnico Independente para Análise, Acompanhamento e Avaliação dos Incêndios Florestais. Se fosse aproveitado o primeiro período noturno, em vez de 26 mil hectares teriam ardido 3 mil.

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O incêndio de Monchique foi detetado às 13h32 de dia 3 de agosto de 2018, mas ninguém sabe a que horas começou verdadeiramente. Essa pode ter sido a primeira falha do combate. “A partir do momento em que é feita a deteção o dispositivo é acionado. Mas não se pode saber qual o tempo que mediou entre o verdadeiro início do incêndio e a deteção”, explicou à SIC o presidente do Observatório, Francisco Castro Rego. “O fogo podia ter começado umas dezenas de minutos antes de ser detetado. Por isso, quando houve a primeira intervenção ela não teve o sucesso que podia ter tido”, relata.

Uma hora depois da deteção já 190 operacionais e nove meios aéreos tentavam controlar as chamas na zona da Perna da Negra. O fogo só foi dominado oito dias depois, a 10 de agosto. Foram consumidos quase 30 mil hectares de floresta.

“O prolongar do incêndio também se ficou a dever à não utilização de algumas janelas de oportunidade que aconteceram durante o incêndio, sobretudo durante a noite do primeiro dia”, explica Castro Rego. “Dois dias depois houve outra janela de oportunidade, mas nenhuma delas foi plenamente utilizada”.

O Observatório acredita que teria sido possível dominar o incêndio "no final do primeiro dia significativo onde terão ardido 2 ou 3 mil hectares”. “O ciclo até às 10h é o mais favorável para atuar no combate. A partir das 10 da manhã e sobretudo em condições meteorológicas e de combustível como tivemos é muito difícil, se não impossível, combater o incêndio”, explica o especialista.

A melhor oportunidade para controlar o fogo registou-se no dia 6 de agosto, quando o incêndio entrava no quatro dia. Os bombeiros quase dominaram as chamas, mas o fogo levou a melhor. O Observatório que analisou o incêndio de Monchique concluiu que se descuraram as ações de rescaldo. Além disso, os índices meteorológicos fundamentais para orientar o combate “não foram usados a nível local”, explica Castro Rego. “Falta articulação mais plena entre a parte estratégica que só pode ser feita a um nível superior, nacional, e a parte mais operativa que tem de trabalhar a um nível local.”

No início do dia 7 de agosto passou a ser o comando nacional a liderar o combate ao incêndio. A atuação da GNR, obrigada a usar a força para retirar populações de casa e evacuar povoações, é elogiado pelo Observatório. “Julgo que muita dessa intervenção mais musculada é perfeitamente justificada. É melhor que as pessoas fiquem incomodadas do que sejam vítimas do próprio incêndio. Há uma sensibilidade muito especial, mas há um desempenho que nos parece, em geral, que tem sentido”, disse Francisco Castro Rego à SIC.

O relatório do incêndio de Monchique está praticamente concluído. Falta apenas receber os dados solicitados à GNR. Oito meses depois do fogo “a GNR é a única entidade que ainda não enviou informação ao Observatório”, lamenta o presidente do organismo sedeado no Parlamento.

Castro Rego nota que Monchique vivia um “contexto muito complicado”. “Há um contínuo florestal sobretudo de eucalipto, muito dele mal gerido. Esse contínuo com aquele período meteorológico complicado cria as condições para que haja um incêndio com esta dimensão”, explica.

Para futuro, o especialista diz que é essencial que passe a haver “planeamento estratégico, não para as próximas horas, mas a pensar em ciclos maiores”. O Observatório acredita que se tem evoluído, mas avisa que ainda há muito trabalho pela frente. “Já podíamos ter aprendido e corrigido a nossa mão mais rapidamente”, criticou Castro Rego.

A SIC contactou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil que entende que enquanto o relatório não estiver concluído não é oportuno pronunciar-se.