Investigação SIC

À espera da barragem

À espera da barragem

Como e quando se justifica a construção de uma barragem? E quanto vale uma velha promessa política nos planos de valorização do interior?

A aldeia do Pisão, no concelho do Crato, ouve há mais de 60 anos falar da construção de uma barragem que mudaria o Alto Alentejo e que ali seria construída, deixando a povoação submersa.

Como um "Alqueva em escala menor", para benefício agrícola, em primeiro lugar, e da rede de água para a população, foi sendo não só prometida como foi mesmo anunciada por sucessivos governos, publicamente por três primeiros-ministros, sem que a construção tivesse sequer arrancado.

Até se ter tornado quase num mito, quase anedota, a espera pela barragem, por uma aldeia de um concelho pequeno que foi envelhecendo, perdendo população e, com o passar dos anos, desacreditou que alguma vez a obra fosse feita.

Mas continua a ouvir que, um dia, era bom que viesse, o que faria a aldeia desaparecer para sempre.

O Pisão quer desaparecer. E no último ano, a investigação SIC encontrou um movimento de pressão que pegou nos projetos e lhes juntou a rentabilidade turística como atrativo para convencer o Governo da viabilidade económica da barragem e está a estudar a componente de produção de energia, através de painéis foto voltaicos no espelho de água.

Um grupo mais alargado, com todos os concelhos do distrito de Portalegre envolvidos através da Comunidade Intermunicipal, Associação de Agricultores e de Produtores Agrícolas de Precisão, chegou aos Ministérios, apontando o sucesso do Alqueva e o quanto um hectare de regadio vale incomparavelmente mais do que um de culturas de sequeiro, puxando das bandeiras do combate ao despovoamento e das oportunidades de revitalização do norte alentejano e acenando com as alterações climáticas e o risco da seca para justificar a necessidade iminente de ter uma reserva de água estratégica.

Os especialistas, ouvidos pela SIC, concordam. Esta região não tem uma reserva de água. E ela pode mesmo falhar em todo o distrito de Portalegre se o cenário dos últimos anos de repetir. É que a barragem que abastece, atualmente, oito concelhos tem mais de 90 anos, precisa de ser reparada já que os danos na estrutura estão à vista e a solução tem sido reduzir a cota, logo baixar a quantidade de água armazenada. Póvoa e Meadas pode durar dois a três anos, segundo cálculos que a Universidade de Évora está a validar. E com isto tornou-se mais um argumento dos que querem levar o projeto do Pisão até ao fim.

A barragem não foi uma promessa do Governo de António Costa. Mas em abril, quatro ministros (Economia, Planeamento, Ambiente e Agricultura) assinaram a criação de um grupo de trabalho para concluir sobre a viabilidade do projeto e estudar o modelo de financiamento. Isto no prazo de 60 dias que termina em junho.

O projeto que existe estima um custo de 100 milhões de euros, incluindo a deslocalização do Pisão.

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