Reportagem Especial

Onde estão as vítimas do ciclone Idai?

Hoje no Jornal da Noite

SIC

"(Re)Nascer Leva Tempo" é o nome da Reportagem Especial que cinco meses passados nos leva de regresso à Beira.

Onde estão e como estão as vítimas do ciclone Idai que em março deixou um rasto de devastação em Moçambique, Madagáscar, Zimbabué e Malawi?

Só em Moçambique, o país mais afetado, as cheias e os ventos fortes mataram pelo menos 603 pessoas. Pelo menos, porque foi o próprio presidente moçambicano quem já admitiu oficialmente que os dados, oficiais, estão longe, muito longe, da realidade.

Os repórteres da SIC Ana Peneda Moreira e Odacir Junior regressaram à província de Sofala.

A comunidade internacional canalizou meios para ajudar os milhares que perderam o teto e o sustento. Moçambique já disse que precisa de mais, no total 2,8 mil milhões de euros para reconstruir o que o ciclone Idai levou.

"(Re)Nascer Leva Tempo" é o nome da Reportagem Especial que cinco meses passados nos leva de regresso à Beira.

No rasto daqueles que deram rosto ao maior desastre natural do hemisfério Sul.

Para ver esta terça-feira no Jornal da Noite da SIC.

"Re'Nascer leva tempo"

"Já morreu", são as palavras de Sara Santos ao deixar de sentir o filho no ventre.

Nas tendas da Cruz Vermelha Portuguesa em Macurungo, distrito da Beira, Moçambique, a jovem mãe sente o corpo a desistir. Segura-lhe a mão e a fé a parteira portuguesa Maria Maceiras. Voluntária da Cruz Vermelha partiu para Moçambique após a passagem do ciclone Idai.

Todos os dias ajuda bebés a nascer. Mas hoje é diferente, a cada contração da mãe, a parteira deixa de sentir os batimentos cardíacos do feto. As condições da tenda médica não permitem a realização de cesarianas ou o recurso a fórceps.

"Uma ambulância, chamem uma ambulância", pede a parteira portuguesa. A esperança agarra-se à possibilidade de enviar a grávida para o hospital central da Beira, mas a ajuda demora e demora, demora demais...

Haverá uma segunda oportunidade?

Reencontrámos Zaida Marcelino, cinco meses depois, ainda perdida no vazio de uma escola que nunca mais voltou a ensinar.

Em março, estava agarrada às memórias de uma canoa cheia de crianças que viu tombar sem nada poder fazer.

Alimentava, contudo, a esperança que o tempo levasse menos a devolver o que o mau tempo roubou. Hoje Zaida, pergunta, apenas, se "a sorte existe duas vezes?"

Solidariedade portuguesa dá casas em Nhampuépe

Uma simples panela pode ser riqueza que baste para transformar a vida de quem perdeu tudo. Cinco mil mudam a vida de tantos mais.

A Moçambique já chegou as mochilas solidárias da SIC Esperança. Foram para Nhampuépe, local escolhido também para canalizar os 240 mil euros que os portugueses doaram através de uma campanha divulgada nos ecrãs da SIC.

240 mil euros que vão em breve dar teto a pelo menos 70 famílias.

Aprender segundo as contas da resiliência

O ciclone Idai destruiu 1372 escolas.

Em Tundane, aldeia remota no município do Dondo, são muitos os que andam cerca de duas horas a pé para chegar até à Escola Completa.

Há quem diga que a tenra idade é boa ajuda na hora de apagar as más memórias. Mas por aqui é difícil esquecer, quando aprender exige resiliência, falta de teto e um dia inteiro sentados em terra batida.

Os desalojados reassentados

As águas arrastadas pelo ciclone Idai isolaram Buzi do resto do mundo.

Cinco meses passados, já é possível chegar novamente de carro ao distrito. Mas a vida não voltará a ser a mesma.

A população fugiu do centro da cidade, que fica abaixo dos níveis do mar, para rumar a um sítio mais seguro, Guáraguára, um dos pontos mais altos.

Aqui vivem agora 5 mil famílias em tendas que em breve serão um grave problema de saúde.

A fé tem céu aberto

Domingo, 9 da manhã, Lamego.

Os cânticos da missa católica ouvem-se na rua. Projetados pela força das vozes e pela falta do teto e das portas da igreja, que nem a fé conseguiu segurar.

Lamego foi das zonas mais afetadas pelo ciclone. Ninguém sabe quantos morreram por aqui.

À hora da missa, uns rezam, outros levantam as paredes que crescem lentamente, à velocidade do pouco que cada um pode dar.