Reportagem Especial

Reportagem Especial: “As lágrimas não se fazem ouvir”

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O bullying continua a dar sinais de não estar controlado, apesar das campanhas de prevenção que todos os anos se renovam.

Por medo ou vergonha, a maior parte das vítimas não denuncia. Por sua vez, muitas escolas escondem o problema debaixo do tapete ou desvalorizam-no, mas o bullying e o cyberbullying deixam marcas que ficam para sempre.

O que leva uma criança ou jovem a agredir outros de forma intencional e repetida, e o que é preciso ser feito para que este flagelo não continue a crescer, é o que mostramos na Reportagem Especial: “As lágrimas não se fazem ouvir”.

As palavras são de “Paulo”, nome fictício que usamos para proteção da identidade deste adolescente de 16 anos que assume ser agressor. “Procuramos sempre os mais novos, os mais fracos, aqueles que sabemos que se levarem pancadaria hoje, amanhã vão querer estar longe”.

“A minha infância foi horrível”

Para compreender o que está por trás deste tipo de comportamento, conversámos com o psicólogo educacional Luís Fernandes. Há duas décadas que acompanha agressores e vítimas. Diz que quando ouve os “bullis” em consulta, facilmente percebe que precisam muito de ajuda. “São miúdos que se partem com facilidade, como se fossem de cristal, porque aquele ar durão que eles tentam passar na escola desmonta-se com muita facilidade”.

“Paulo” é exemplo disso. O testemunho rapidamente se confunde com o das vítimas. “A minha infância foi horrível. Em grande parte porque fiz com que fosse assim, sendo «bulli». Nunca tive relação com o meu pai e a minha mãe batia-me”.

A atenção sempre foi um desafio difícil para “Paulo”. A aprendizagem fez-se a ferros. “Eu não sabia ler nem escrever bem e minha mãe pegava numa régua e sempre que eu errasse, verdascava  na minha mão. Outras vezes era nas costas. Depois eu chegava à escola e pensava: que raiva, vou-me vingar!”. “Paulo” descarregava a fúria e a frustração nos colegas da escola. Confessa que, em casa, em momentos de maior fragilidade, chora, sem que o queira.

“Perguntei a um agressor como é que ele escolhia as vítimas”

A orientação sexual e a identidade de género são dos principais gatilhos para o bullying, mas a cor da pele, a deficiência, a pobreza ou qualquer outra diferença pode fazer disparar a agressão. “A certa altura, numa consulta, perguntei a um agressor como é que ele escolhia as vítimas” – conta Luís Fernandes – “e ele respondeu-me assim: está a ver o quadro de honra? Parece a ementa!”. Nídia Fonseca, professora há quase 40 anos, confirma: “Quando as alunos começam a ter melhores notas são alvo de gozo, de humilhação!”.

Chamar gordo ou gorda ou algo que tenha a ver com o aspeto físico é das situações mais comuns a que tem assistido dentro da sala de aula. “Eu pergunto logo: o que é isso? e dizem-me: Professora, estamos a brincar. Mas já são muitos anos a dar aulas e eu consigo perceber se a situação foi casual ou se é recorrente. A vítima fica normalmente com um olhar triste e magoado, que tenta disfarçar”.

O que pode parecer um comentário inconsequente, por vezes ganha contornos pesados, como explica Tito de Morais, especialista em bullying e segurança online. “Uma vez não será exemplo, mas é que às tantas essa colega teve dez colegas que só lhe chamaram gorda uma vez e ela ouviu dez vezes ser chamada gorda”.

“Queria que toda a escola visse que quem manda sou eu”

“Paulo” começou por ser vítima de bullying na pré-escola. “Chamavam-me gordo, diziam que eu não ia ser ninguém na vida. Atacavam-me por todos os lados, ao ponto de me estorvarem a cabeça”. Depois cresceu, ganhou corpo, músculo e altura, e tornou-se um dos maiores da escola. “Comecei a fazer bullying com aqueles todos que fizeram bullying comigo”. Diz que esse comportamento era uma autodefesa “para que os outros olhassem e dissessem: não faço mais bullying com aquele porque já vi o que me pode acontecer”. Só que depois começou a querer mais: “queria que toda a escola visse que quem manda sou eu. Era bullying verbalmente, gestualmente, pancadaria.”

Estas são algumas mensagens deixadas no telemóvel da filha de Gabriela Almeida. A perseguição de que a menina de 11 anos era alvo por parte de vários colegas atravessou muitas vezes os muros da escola e entrou em casa através da internet e do whatsapp.

Gabriela fez várias queixas à escola, mas o bullying de que a filha era alvo continuou. “Tive que dizer basta!”. Pedir a transferência foi a única solução que encontrou para que a filha deixasse de chegar a casa desfeita em lágrimas. Mas a menina não se conforma que tenha sido ela a ter que mudar de escola onde, apesar de tudo, tinha amigos: “Quem devia ter saído era a menina repetente e os outros meninos que me trataram muito mal”.

Tal como acontece com a violência doméstica, também no bullying quem a maior parte das vezes tem que se afastar é a vítima. E a mudança de escola acaba por representar um duplo castigo. “Às vezes chego a bater com a porta, chego a ficar com ataques de raiva e às vezes quando eu estou a fazer coisas, eu começo a chorar mesmo do nada”. Gabriela diz que a filha era uma menina e extrovertida e divertida e que se tornou uma criança revoltada e cheia de complexos. Já procurou ajuda psicológica. “Já falei com a médica de família. Estou à espera. Tudo neste país leva tempo”.

Marcámos encontro com Pedro Esteves às 9h da manhã, em Loures. Pedro recebe-nos em casa. Enquanto nos mostra a cabeleira postiça que hoje optou por não pôr, explica o tempo que dedicou a produzir-se: “a maquilhagem demorou mais ou menos uma hora e meia, as unhas demoraram duas horas. Não é só o facto de eu me maquilhar ou de eu ter umas unhas nas mãos. Foi o percurso que tive que fazer para eu não ter vergonha daquilo que eu sou. Não, eu não sou gay. Sou gayzissinho! Eu sou quem eu quero ser. Eu sou o Pedro”.

Pedro tem 18 anos, está no 12º ano, estuda música e trabalha com crianças da pré-escola.

“Todos os dias ouvia uma boca: és uma aberração, és um paneleiro”

Todas as tardes dinamiza os ateliers de tempos livres de um grupo de crianças na Escola Básica da Apelação, em Loures. Diz que hoje em dia não só se aceita, como se orgulha de quem é, mas não se esquece dos primeiros tempos de escola. “ “O meu ensino básico foi horrível. As pessoas davam-me encontrões quando ia para as aulas, todos os dias ouvia uma boca: és uma aberração, és um paneleiro”.

A mãe, Isaura Assunção, acompanha o filho o mais possível. Assume que muitas vezes não é fácil. “Quando vou ao lado do meu filho e cospem no chão, por exemplo, ou quando leio alguns comentários nas redes sociais”.

Isaura recorda que, com 13 anos, o filho deixou de querer ir para a escola ou até de sair da cama. Várias vezes ouviu-o dizer: “Eu não estou aqui a fazer nada, eu não presto para nada, sou monte de merda”. Isaura temeu que o filho pusesse termo à vida. “ Chorei muito. Não à frente meu filho, mas chorei fechada no quarto. Havia alturas em que chorávamos os dois”.

“Nota-se uma grande dificuldade das crianças se relacionarem e de terem respeito umas pelas outras e cada vez a faixa etária é mais precoce, o que nos está a assustar”, revela Maria de Jesus Ramires, presidente da CPCJ – Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Beja. Descobrimos muitas vezes que quando nos vêm falar dos agressores, os agressores também são vítimas e as vítimas também são agressores”.

“Hoje em dia nota-se uma violência gratuita muito maior”

Cristiane Miranda, coach e especialista em comunicação junto dos jovens, lembra que as brigas entre miúdos sempre existiram “só que hoje em dia nota-se uma violência gratuita muito maior. Antigamente os pais também trabalhavam, mas os miúdos eram educados pelos avós, pelos vizinhos e tinham um núcleo de família e amigos próximos. Hoje em dia, as crianças passam praticamente o tempo todo na escola ou em casa agarrados à Internet”.

O psicólogo Luís Fernandes mostra preocupação pelo facto de que se estar a dar demasiado relevo à parte mais técnica da escola, ao preparar a universidade e para a inserção no mercado de trabalho e de se estar a perder a vertente emocional. “E a parte emocional é a base da prevenção e combate ao bullying e de outras questões. E agora com a pandemia começamos a apanhar consequências desta questão. São miúdos que são menos empáticos”.

Maria João Horta, subdiretora-geral da Direção-Geral da Educação reconhece que começam a surgir situações mais complexas e mais difíceis de identificar, quer na sociedade, quer nas escolas. “Temos feito um trabalho de prevenção, com reforço do número de psicólogos nas escolas. Incluímos também a Educação para a Cidadania no currículo escolar, por exemplo. E há casos que que envolvem o programa Escola Segura, com elementos da PSP e a GNR. Mas a escola não pode resolver todos os problemas da sociedade”.

Para muitos pais, é uma surpresa descobrirem que o filho faz parte do problema. Ao choque soma-se a vergonha. “Às vezes esses valores são passados” – explica Luís Fernandes – “mas há uma questão que muitas vezes nos esquecemos: para um adolescente é muito mais importante a opinião dos amigos, o estar bem integrado na turma e na escola do que os valores que os pais lhe transmitem”. O psicólogo alerta por isso que não se deve generalizar.

Qualquer que seja o caso, denunciar é um passo fundamental para a solução, mas o silêncio das vítimas continua a ser a arma mais poderosa dos agressores.

“A tua mãe vem aqui à escola porque ainda és menino da mamã”

“Quando escondia era por medo de que eles me podiam fazer se descobrissem que eu tinha contado”, conta Pedro. “E há sempre aquela maldade dos miúdos dizerem: a tua mãe vem aqui à escola porque ainda és menino da mamã”, acrescenta a mãe.

Estima-se que 60% das vítimas não contam a ninguém, daí o papel fundamental dos observadores. “Se tivermos observadores que sejam interventivos, há menos situações de bullying porque não há espaço para que elas aconteçam”, alerta o psicólogo Luís Fernandes.

Rodrigo Rocha, 15 anos, mora em Melgaço, frequenta o 10º ano e conhece bem este registo. Viveu-o durante sete anos: “Desde empurrões, até atirarem-me ao chão aos pontapés e aos murros. Mentalmente picavam-me até eu perder o controlo”.

Rodrigo nunca fez parte do grupo dos mais populares da escola. “Foi sempre um menino muito calado, qualquer coisa o punha a chorar. É um miúdo que tem uma cultura geral fora do normal para a idade que tem. Lê e pesquisa muito e ele gosta de aprender, por isso ele ia para a escola. Ele sabia que ia para o inferno, mas na cabeça dele aquele inferno quase que já fazia parte do dia a dia dele”, conta a mãe, Vanda Pimenta.

“Ela disse-me: vai-te embora que não quero problemas”

Rodrigo nunca escondeu o que se passava na escola e foi aconselhado pelos pais a procurar ajuda junto dos professores e funcionários: “Tenta não reagir, afasta, ignora, faz ouvidos de mercador”. Mas Rodrigo diz que na escola não encontrou ajuda. “Uma vez pedi socorro a uma das funcionárias”, diz Rodrigo. “Ela disse-me: vai-te embora que não quero problemas”. Começou a acreditar que era o culpado do que lhe estava a acontecer.

“Quando há uma situação de bullying, a primeira coisa que eu aconselho sempre aos pais é formalizar por escrito, disse sempre escrito essa queixa junto da escola”, alerta o psicólogo Luís Fernandes. Foi o que a mãe de Rodrigo fez. Formalizou várias queixas por escrito junto da escola, que, diz, não resultaram em nada.

A situação arrastou-se durante anos. Vanda Pimenta não se rendeu. Reuniu provas todas as provas e foi bater a outras portas. “Formalizei a queixa junto IGEC, a Inspeção-Geral de Educação e Ciência face à inação da escola, perante as constantes agressões físicas, verbais, psicológicas que o meu filho sofria”. Foi instaurado um processo disciplinar. A Inspeção-Geral de Educação e Ciência concluiu que a diretora do Agrupamento de Escolas de Melgaço cometeu infração disciplinar, por omissão, com grave negligência ou desinteresse pelo cumprimento dos seus deveres funcionais”. O despacho determina assim a “suspensão graduada em 80 dias” e ainda a “cessação da comissão de serviço” como diretora.

Contactada pela SIC, a diretora da escola não quis prestar declarações sobre este processo.

Apesar das punições terem ficado suspensas por não existirem antecedentes e por se entender que já têm um efeito preventivo, ao que a SIC apurou, não há registo de um castigo tão pesado aplicado em casos com contornos semelhantes. Esta decisão pôs fim a uma longa batalha de rodrigo e da família contra o bullying. “É um a alívio perceber que algo está a ser feito para me proteger e para proteger outros em situações semelhantes à minha”, diz Rodrigo.

“Isto teve um impacto muito grande na autoestima do meu filho, porque ele percebeu que as queixas dele ao longo destes anos todos não foram em vão” explica a mãe. “Todos nós sabemos que há mais situações porque continua sem existir uma atuação efetiva por parte de quem o deve fazer”.

“Não temos um diagnóstico do bullying no país”

Tito de Morais aponta o dedo ao governo: “O grande problema em Portugal é que nós não temos um diagnóstico do bullying no país e sem saber qual é a doença não podemos tratá-la!”.

A subdiretora-geral da DGE contesta: “Acho que se conhece bem o problema. Nós temos o reporte que as escolas fazem junto uma Plataforma da Direção Geral dos Estabelecimentos Escolares e esses números têm vindo a diminuir”.

Mas segundo vários especialistas, estes registos feitos pela direção das escolas estão muito longe da realidade. “O que acontece muitas vezes é que a própria escola não tem interesse em relatar ao casos de bullying, porque depois a escola ao lado tem as mesmas situações ou piores e não relata”, explica Luís Fernandes.

Tito de Morais acrescenta: “sobretudo nas situações de cyberbullying as queixas são metidas debaixo do tapete. Dizem: não temos provas de que isso aconteceu dentro do recinto escolar, portanto, não é nada connosco. Claro que é! O elo de ligação à escola, portanto, se alguém que pode fazer alguma coisa é a escola”.

Ambos alertam que quando são questionados os alunos e não os diretores, os estudos indicam, não uma diminuição mas, antes pelo contrário, um agravar do problema.

“Demonstra uma cegueira e uma falta de vontade política”

O bullying afeta, em média, uma em cada 3 crianças em idade escolar principalmente na faixa etária entre os 13 e os 15 anos. Falamos de vítimas, de agressores e de quem está nesse duplo papel. Aliás, os últimos estudos falam em 38%, portanto, já é até acima”, esclarece Luís Fernandes. A subdiretora-geral da DGE argumenta que quaisquer que sejam os números, o trabalho está a ser feito e lembra o programa “Escola sem bullying. Escola sem violência” lançado em 2019.

Mas o desenho deste plano contou com o contributo de Luís Fernandes e de Tito de Morais e ambos criticam o Ministério da Educação por ter deixado cair grande parte ações propostas – como por exemplo uma linha anónima de denúncia e de ajuda – e por nunca ter avançado com um diagnóstico do problema. “Isto permitia que cada escola definisse um plano de ação, cada município fizesse a mesma coisa e que o país definisse uma estratégia para lidar com a situação que é, infelizmente, o que não acontece hoje”, lamenta Tito de Morais. “Demonstra uma cegueira e uma falta de vontade política”.

O especialista defende a necessidade de uma estratégia de prevenção e combate ao bullying que dê ao alunos oportunidade de serem ouvidos “porque são eles que sofrem deste fenómeno e que também estão na origem deste fenómeno, por isso devemos dar-lhes voz para que façam parte da solução”.

O psicólogo Luís Fernandes acrescenta que o combate ao bullying deve começar o mais cedo possível, ou seja, ainda no final da pré-escola: “ Isto é mesmo um combate. Quando há miúdos que falam em caçada que falam em tortura, é um combate, que é diário que nunca está totalmente ganho, mas se nós conseguirmos terminar com o bullying na vida de alguns miúdos, fazemos toda a diferença!” .

Ficha Técnica da reportagem:

Jornalista: Catarina Marques

Repórter de Imagem: Humberto Candeias

Editor de imagem: Rui Félix

Grafismo: Rui Aranha

Ilustração: João Carlos Santos

Produção: Ângela Rosa

Coordenação: Luís Marçal

Direção: Ricardo Costa

O que sabe sobre bullying e cyberbullying?

Responda às perguntas e meça os seus conhecimentos. O questionário foi desenvolvido expressamente para a Reportagem Especial da SIC por Tito de Morais (MiudosSegurosNa.Net) e Cristiane Miranda (Teen On Top – Coaching para Jovens), sendo uma adaptação sintética do trabalho desenvolvido no âmbito do projeto “Agarrados à Net”, que visa a promoção do bem-estar digital de crianças, jovens e adultos através de intervenções em escolas e comunidades.

Quanto mais pessoas estiverem informadas sobre este tema, melhor conseguirão informar, sensibilizar e educar crianças, jovens e adultos sobre a realidade do bullying / cyberbullying em idade escolar, contribuindo assim para a sua redução.

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